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afonsonunes

afonsonunes

05 Mai, 2010

Nem 8 nem 80

Tudo indica que vão ser mesmo oitenta, as perguntas que os deputados submetem à obrigação de Sócrates responder, na qualidade de primeiro-ministro, na qualidade de secretário-geral do PS, na qualidade de amigo de alguns amigos, na qualidade de cidadão, na qualidade de pensar no que lhe interessa e na qualidade de tentar fazer o que lhe convém.

Haverá quem pense que são qualidades a mais e haverá quem pense que são qualidades a menos. Mas, uma coisa é certa. Todas estas qualidades ainda não atingiram o número considerado mínimo de oito, quanto mais o máximo de oitenta, que é realmente o número considerado ideal para uma ‘perguntação’ que talvez acabe com respostas através de cruzinha.

Segundo as minhas previsões, expressas pelo dedo mindinho esquerdo, as quais não costumam falhar muito, haverá para aí nove perguntas relacionadas com a actividade de primeiro-ministro. Serão certamente do tipo de – Costumas entrar a horas no emprego ou esqueces-te de picar o ponto? - Quantas vezes na semana vais dar umas corridinhas nas horas de serviço? – Quantos despachos à direita assinas por dia? – Gostas ou não das quintas-feiras em que passas por Belém? As restantes cinco são confidenciais.

Na qualidade de secretário-geral do PS deverão ser para aí umas catorze, destacando as seguintes. – És contra ou a favor de Alegre nas tuas corridas? – Mário Soares tem ou não as cotas em dia? – Almeida Santos manda alguma coisa? – João Soares ainda vai ao Rato? – Manuel Maria Carrilho tem viagens pagas entre Lisboa e Paris? – Jorge Coelho ainda dá, ou também já leva? As restantes oito perguntas foram-me sonegadas pelo dedo mindinho direito.

Na qualidade de amigo de alguns amigos, tenho a certeza absoluta de que serão exactamente quarenta e três as perguntas formuladas, mas apenas três delas podem ser aqui transcritas, porque contêm umas palavritas que não convém serem escritas. Podiam ser ditas frente a frente, mas era preciso que não fossem gravadas nos registos vídeo da AR, que é uma casa decente. E, já agora, lá vão as três. – Eh pá, quando é que vais apanhar uns caracóis com o Rui? – Ouve lá, quando é que comeste os caracóis com o Armando? – Olha, pá, afinal, sempre disseste ao Figo que os caracóis estavam uma porcaria (o termo original era outro começado por m). Aqui, talvez haja ainda uma redução de quatro perguntas passando a ser setenta e seis no total, segundo informação de última hora.

Na qualidade de cidadão, detectei apenas uma pergunta, mas até tenho vergonha de a revelar, uma vez que é mesmo de carácter íntimo, mesmo muito íntimo. Portanto, eu também não gostaria de revelar a que horas faço três coisas em casa, uma das quais, sempre que a faço, lembro-me inconscientemente dos meus inimigos. E é para eles que a faço.

Foram engendradas três perguntas na qualidade daquilo que o homem pensa que lhe interessa. Aqui tive de reflectir profundamente, enquanto puxava pelo dedo mindinho esquerdo, já vermelhão como o tal depois de apedrejado. É que isto é muito difícil. Ir buscar estes elementos lá ao fundo… - Interessava-te pensar o que fazias nas sextas-feiras às vinte horas? – Pensavas que tinhas interesses nas sextas-feiras às vinte horas? – Pensavas no que farias se não tivesses nada que fazer nas sextas-feiras às vinte horas? Peço muita atenção às aparências, porque isto não são repetições.

Finalmente, na qualidade de quem tenta fazer o que lhe convém, e para perfazer o tal número de oitenta perguntas, (talvez menos quatro) restam apenas dez que, mesmo assim, sempre pensei que fossem muito mais. Até me lembrei que talvez fosse aqui que a coisa passou de cento e dez para oitenta. Uma considerável redução. Mas vamos às três mais sugestivas, senão o texto fica sem contexto. – Já tentaste comer os caracóis com os amigos, com a boca fechada? – Já tentaste não pensar nos inimigos, naquele já referido momento íntimo? – Já deixaste de pensar no alívio das vinte horas das sextas-feiras? Se responderes sim a estas três perguntas estás no caminho correcto pois, certamente que sabes bem o que te convém.

O meu dedo mindinho esquerdo, teimosamente, diz-me que não responderás a oitenta perguntas. Vá lá, ele diz que não arrisca mais que oito.