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afonsonunes

afonsonunes

12 Set, 2008

Com quem cantas

 

 
Acho muita graça a toda a gente que canta e nem sequer me preocupo se canta bem ou mal. Quem sou eu para discernir sobre uma matéria tão complicada e tão complexa. Quem, para mim, canta muito mal pode, perfeitamente, cantar muito bem para outras pessoas, tendo em conta que a voz de quem canta, a música, a letra e a simpatia, não se medem ao centímetro, nem tão pouco ao mililitro.
As cantigas são tão variadas como os cantos. Até há quem fale a cantar e quem tenha o mau hábito de falar a chorar, principalmente, a exibir um permanente choradinho, na convicção de que, assim, leva melhor a água ao seu moinho, ou a brasa à sua sardinha. E se os cantos se destinarem a convencer os anjinhos de que os deuses são os seus autores, então temos samba misturado com fado, ou rock a competir com folclore, principalmente, nas arenas políticas e desportivas.
Não interessa que lhe chamem comício ou tourada, porque a terminologia do presente já não tem nada a ver com o passado não muito distante, em que se chamavam os bois pelos nomes e o que era branco nunca se confundia com o que era vermelho. Hoje, há muitos tons alaranjados ou avermelhados, que não se sabe bem para que cor se inclinam.
Porém, acho uma graça muito especial a quem canta com a finalidade única de afinar a sua voz com o canto de alguém, ou cantar ao desafio para secundar ou contrariar outros cantos, ainda que a garganta não lhe permita mais que uns desagradáveis cacarejos, por mais que lhes ajeitem os microfones e as aparelhagens de alta tecnologia.
Não é difícil ver quem canta por vocação e transmite ideias genuínas com voz de quem se sente uma autoridade na música que espalha no ar, tal como não é difícil identificar quem faz um esforço inglório para levar as suas cantigas, muitas vezes as suas modas antigas, à tentativa de ofuscar quem realmente canta bem e sabe cantar sem esforço.
Cada um é para o que nasce, diz o povo, daí que seja natural que nem toda a gente saiba cantar como manda a sapatilha. Mas, o grande mal vem do facto de que a ignorância se queira meter com a competência, abrindo guerras constantes, no sentido de meter ruído onde soa música de qualidade.
Cantar, todos cantamos, embora cantemos cada vez menos devido às canções que nos entopem os ouvidos e nos afectam as algibeiras. Mas, acima de tudo, temos de estar sempre atentos a quem nos quer dar música de borla, porque a factura vem muito tempo depois.
Eles dirão que contam comigo. Eu direi que não canto com eles.