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afonsonunes

afonsonunes

06 Mai, 2010

Ideias fixas

Parece estar próximo do esgotamento o assunto do programa prós e contras da televisão pública. Não sei mesmo se não terá como destino a curto prazo o esgoto da rede pública, tão fastidioso se tornou pela consecutiva repetição de assuntos e de argumentos mais que mastigados da respectiva apresentadora.

Já me constou que o próximo, digno substituto dos contras, se vai designar, Ó Tempo Volta Pra Trás, durante o qual vão avaliar-se as possibilidades de repor na agenda política as ideias programáticas dos anos entre as décadas de vinte e setenta, com todas as hipóteses de recuperação de muitas figuras dessa época.

Em relação a algumas delas apenas será possível a recuperação de fotografias, mesmo essas um pouco degradadas, mas de interesse indiscutível para a memória da nação, base de um radical enterro de todos os resquícios das ideias luminosas posteriores aos anos setenta. Só assim renascerá o verdadeiro espírito lusitano.

As televisões já estão a contribuir de maneira muito decisiva com a presença quase permanente de gente dessa gesta heróica, bem como alguma imprensa, muito bem integrada nesse plano nacional, para que, Ó Tempo Volta Pra Trás, seja o sucesso que a nação precisa.

Nesse sentido, vai falar-se durante os anos seguintes, na utilidade ou inutilidade da construção da linha férrea entre Lisboa e o Carregado, sendo de admitir que, se vier a concluir-se que, se ela foi construída por uma decisão política errada, deve ser deitada abaixo, logo que essa discussão acabar. Já está agendada a apresentação de uma providência cautelar nesse sentido.

As gentes do Carregado não estão muito preocupadas porque, dizem, essa é uma discussão à antiga portuguesa, com continuidade nas modernices actuais, discussão que nunca mais terá fim logo, estão perfeitamente descansados. Também acreditam que a linha nunca mais chegará ao Porto, exactamente, pelos mesmíssimos motivos.

Já o pessoal de Lisboa diz que é preciso continuar a discutir se deve manter-se a linha com dois carris ou se, eventualmente, se poderá optar pelo mono carril, muito mais económico, embora com o perigo de descarrilamentos eminentes. Como são opções de muita responsabilidade, há que prosseguir a discussão, porque da discussão nasce a luz, dizem.    

Por sua vez os caragos do Porto estão revoltados porque dizem que o problema ainda vai acabar por ser resolvido, muito antes de eles entrarem na discussão, o que julgam poder tratar-se de uma precipitação, pois mais vale demorar mais século menos século, mas darem o seu imprescindível contributo.

Agora, cheinhos de razão estão os cábulas de Coimbra, pois argumentam que estando a meio caminho entre Lisboa e Porto, estão mesmo a ver que as obras ainda mudam do Carregado para Campanhã, sem passarem pela Universidade, desprezando completamente a necessidade de consulta ao conde Manuel e tribuno Alegre, considerado insulto gravíssimo irreparável.

Por tudo isto, a discussão vai ser muito interessante, muitíssimo mais que as discussões da ética ou dos inquéritos que já cheiram mal, perdão, já cheiraram mal, porque agora já nem sequer cheiram, consequência de tantas petas de cheiros tão diversos, à volta de uma petazinha cujo cheiro se não identifica no meio dos restantes.

Mas, por mim, prefiro ouvir a discussão do troço Lisboa Carregado, faz-se, não se faz, passa por Coimbra, não passa, chega ao Porto ou não chega, ou volta mesmo para trás. Só espero que não digam que sou de ideias fixas e deixem de fora os que agora nunca mais mudam de assunto.   

Pois que não mudem, pelo menos assim, não estão sem fazer nada, nem fixam as ideias em coisas muito mais chatas. Então, sim, é que estaríamos perante Velhos do Restelo para uns, ou a aturar a Brigada do Reumático, para outros.