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afonsonunes

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08 Mai, 2010

Futuro excêntrico

Estava aqui a lembrar-me daquele excêntrico que comprou uma rádio lá em cima e a partir desse momento começou a estopada de se ouvir apenas a música preferida dele. Exactamente, a música preferida dele e não dos outros, daqueles que, para o negócio, apenas entraram com os ouvidos. Provavelmente meio encerados.

Por causa disso, na minha cabeça acordou um sonho que sempre julguei irrealizável. Também eu podia ser o próximo excêntrico e dar asas a esse sonho, que era ver e ouvir apenas e só, aquilo de que gosto, deitando para trás das costas todo o lixo áudio visual que me tentam impingir diariamente.

Afinal, não era assim tão difícil como eu pensava, a partir do momento em que ouvi dizer que o euro milhões criava excêntricos todas as semanas. Ah sim? Então, cá o fulaninho não esteve com meias tintas a pensar ou a reflectir, como vejo fazer a tanta gente que leva a vida inteira nisso. E até pessoas importantes. Talvez por isso mesmo. 

Com o entusiasmo, passei a jogar todos os dias para ter mais possibilidades no final da semana. Assim como aqueles que telefonam para as televisões a sessenta cêntimos mais IVA, pois também telefonam muitas vezes seguidas convencidos da eficácia, tal como eu, da entusiasmante promessa de que quanto mais jogarem mais ganham.

Mas, o problema é que quero mesmo ser excêntrico uma vez na vida. Acho que não só tenho esse direito, como mereço realizar o meu sonho já muito antigo. E também tenho consciência de que tenho de ser um excêntrico de alto nível, isto é, o meu sonho não é apenas comprar uma rádio lá de cima ou cá de baixo.

O meu sonho é comprar a RTP1, visto agora, finalmente, parecer estar quase à venda. Ora isso deve custar para lá de uns dinheirões e, pior ainda, devo ter uma concorrência dos diabos. Concorrentes que nem precisam de lhes sair o euro milhões pois, como toda a gente sabe, eles até são capazes de comprar o euro milhões todos os dias.

Mas eu, que sou um excêntrico por natureza, tenho cá uma fezada de que o euro milhões e o sonho são favas contadas, tanto assim é, que já tenho tudo planeado ao pormenor. O vendedor vai ser o chefe do governo, só não sei ainda de qual deles. Se for o do actual, tenho o problema resolvido, pois se ele for o vendedor, já não será o comprador.

Se for o chefe do governo que se segue, há o perigo de ele vender o que não é dele e querer comprar o que não precisa de pagar, pois seremos sempre nós, os pagantes da compra. O problema é que ele ficaria dono e senhor da propriedade e podia pôr aquilo todo o dia a dar o seu folclore preferido.

Mas, aí parou. Quando eu for mesmo excêntrico, quem manda sou eu. E não terei dúvida nenhuma em ser eu a designar o chefe do governo. Como excêntrico que sou e serei sempre, nunca mais ouvirei as excentricidades dos outros, pois bem bastarão as minhas. A RTP1 passará a ser a voz do dono, a voz do maior excêntrico do país e arredores. Eu, moi, my self.

Esta coisa da RTP1 não tem senão uns tantos mandaretes, muito atinadinhos, muito certinhos e direitinhos no cumprimento das vontades de outros mandaretes, sempre a puxar contra a corrente, querendo mudar o que lhes apetece, mesmo sem nunca terem sido excêntricos. Não, isso não pode continuar, porque não têm competência para mudar nada nem ninguém.

A partir do momento em que eu seja excêntrico, a RTP1 passará, exclusivamente, a dar os discursos do chefe do governo que eu nomear ou, na falta de discursos frescos, as gravações dos anteriores. Nada de folclore, nada de contras, só prós, nada de manifestantes nem de protestantes, que disso estou eu farto, nada de oposições, porque eu estou muito carente de situações.

Não há direito? Quem é que disse? Será que os excêntricos que eu tenho tolerado têm mais direitos que eu? Será que têm pago mais impostos que eu? Pois é bom que vão desabituando os olhos e os ouvidos daquilo que os meus estão habituados há muito tempo.

Tenho muita fé que está mesmo para breve a minha ascensão a excêntrico dos excêntricos. Então, vamos lá, preparem-se.