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afonsonunes

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Até aqui tem sido tudo a brincar, quer com a situação de miséria de muita ou pouca gente, quer com a situação de barrigas a extravasar por todos os lados, num coro de lamentações a roçar o ridículo, em que tudo tem faltado, principalmente, a exacta noção da avaliação de situações que nada têm a ver com a tendência de constantes generalizações.

Tão depressa somos confrontados com notícias que nos dão conta que o país vive miseravelmente, mesmo à beira da fome como, logo a seguir, nos dizem que vivemos acima das nossas possibilidades, consumindo como se fossemos ricos, dando todos os sinais de uma abastança que ninguém quer assumir.

Daí que, de uma vez por todas, tenhamos de cair na real. E a real é que não podemos ser todos ricos, tal como não podemos ser todos pobres, contrariamente ao que tantos igualitaristas não se cansam de proclamar diariamente e também demagogicamente. Porque o mundo não é o que cada um gostaria que fosse, mas aquilo que quem pode, obriga a que seja.

Sem dúvida que devemos lutar contra quem pode e nos obriga a ser o que não devíamos ser. Mas, estamos cada vez mais a assistir a uma espécie de luta contra producente, em que os lutadores querem amanhar-se a todo o custo, esquecendo quem não têm possibilidade de lutar contra nada nem contra ninguém e acabam por ser as grandes vítimas de lutas que acabam por ser egoístas.

Lutas egoístas que cada vez mais robustecem os que podem e nos obrigam cada vez mais a baixar a cabeça, porque hoje a força dos braços já não vale o mesmo que dantes, substituídos pelos braços dos autómatos e dos robots, que fazem companhia aos desesperados que se agarram à velha côdea de pão para sobreviver.

As velhas lutas cada vez se voltam mais contra quem as promove, pois são eles, ou outros iguais a eles, que acabam por ser os prejudicados, quantas vezes os únicos prejudicados, pelas consequências colaterais que resultam de sectarismos ou idealismos que, soando bem ao ouvido, acabam por ser mortíferos para a boca, a maior ou menor prazo .

A grande maioria das lutas de hoje tem de ser dirimida à volta da mesa e não com slogans de rua ou violência verbal ou física. Sobretudo, não é aceitável considerar culpados por boas ou más políticas, por bons ou maus patrões, os agentes da autoridade em quem se descarregam ódios que lhes são alheios, em que levam sem poder dar, só porque estão a cumprir o seu dever.

Tal como não é aceitável que esses agentes da autoridade se desresponsabilizem de exercer a sua autoridade que justifica a sua existência, ou fechem os olhos, quando deviam mantê-los bem abertos, só porque se deixam envolver em lutas que não são as suas, deixando que a impunidade impere e a violência se propague.  

Violentos são todos aqueles que, do alto do seu saber, real ou convencido, se arvoram em donos do poder, mesmo do poder que não detêm nem receberam de ninguém, para criar ambientes hostis que venham a favorecê-los mais tarde ou mais cedo. Porque a violência também se cria através de um sorriso irónico, por vezes cínico, ou de uma gracinha de mau gosto, ainda que cheirando a popularucha.

Violentos são todos aqueles que batem e fogem, ainda que seja com a língua, só porque se sentem protegidos por outros violentos intérpretes de leis, que são capazes de ver cores em cada letra dos códigos que os orientam. A excessiva importância dada às cores preferidas é tão perniciosa como a insuficiência demonstrada pelos daltónicos de conveniência.

Violentos são todos aqueles que, de alguma forma, se furtam, maliciosamente, ao cumprimento de obrigações que lhes impendem. Grandes ou pequenas, de pequenas ou grandes consequências, como se apenas quem eles entendem, tivessem de cumprir obrigações.

O país tem andado a brincar a muita coisa. E os brincalhões não são apenas aqueles que todos os dias são verberados na praça pública. Quando for a sério, como terá que ser, mais tarde ou mais cedo, os violentos vão tentar sacudir a água do capote e, com mais violência, vão tentar que nada nem ninguém lhes toque num cabelo sequer.

Mas é inevitável que qualquer dia seja mesmo a sério. E então, é que vão ser elas.