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afonsonunes

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 Nós só dizemos verdades, os outros só dizem mentiras. Nós só temos princípios, os outros só vislumbram fins. Nós somos uns poços de virtudes, os outros são uma cambada de gente que só tem defeitos. E assim por diante neste vale de lágrimas, onde ainda há quem pense ver nele, uma mistura normal de santos e pecadores.

Nós somos os santos, os outros são os pecadores. Uns e outros muitas vezes armados em anjinhos, porque estão convencidos que Deus lhes concederá a graça divina do lema: Perdoai-lhes Senhor, que eles não sabem o que fazem. E assim, uns e outros terão garantida a presença na vida eterna, pela oração, os primeiros, pelo arrependimento, os segundos.  

Talvez eu esteja um tanto contagiado com este clima criado pela visita papal devido, principalmente, às longas emissões de reportagens, entrevistas e comentários que sinto ocuparem todos os espaços à minha volta. Com uma surpreendente vantagem. Oiço falar de coisas que não vejo nem oiço no dia-a-dia, nesses mesmos espaços.

Já ouvi dizer que a igreja tem de ir ao encontro das mudanças que aconteceram no mundo. Só por milagre. Mas não vou entrar nessa discussão onde, naturalmente, não me sinto à vontade. Mas parece-me que, de igual modo, se pode dizer que muitos cidadãos deste país, muitos e grados, grados e pretensamente muito influentes, também deviam reflectir um pouco sobre mudanças. 

Já ouvi falar de tolerância, nestes dias bem diferentes dos outros, em que só deparamos com intolerâncias de toda a ordem. Principalmente, os egoístas intolerantes que só conhecem a verdade dos seus interesses. Sim, também estes deviam reflectir um pouco sobre mudanças.

Já ouvi falar de solidariedade e de partilha, mas gostava que alguém me dissesse se as têm visto por aí, mesmo discretas, mesmo escondidas. Não, porque elas desapareceram, deixando em seu lugar muitas lutas, discussões e discórdias que geram ódios que parecem insanáveis. Que só um milagre pode fazer desaparecer. Sim, também estes deviam reflectir um pouco sobre mudanças.

Como sempre me considerei uma pessoa com um pouquinho de generosidade digo para eles reflectirem apenas um pouco mas, na verdade, na minha verdade, eles deviam reflectir mesmo muito. É que eles ainda vivem mentalmente no tempo dos apóstolos, com as verdades da época, a religião da época, a noção de santos e pecadores da época. 

Contudo, essas noções não as aplicam a eles próprios. No que lhes diz respeito, o tempo evoluiu, mas quando pensam nos outros, o tempo parou na história da antiguidade. Para eles o tempo trouxe-lhes os direitos modernos. Para os outros, mantém-se o tempo do pecado inquisitorial e a expiação pelo fogo, que mais não seja das chispas das suas próprias línguas.

A minha verdade diz-me que o tempo mudou mesmo, diz-me que já ninguém pode ser queimado, seja por que fogo for, porque ninguém suporta já os métodos antigos da moderna inquisição, as verdades da sua falsa moral e as mentiras dos seus princípios, quando estão a julgar os outros.

Comecem por julgar-se a si próprios, comecem por submeter-se a um auto interrogatório e a uma apreciação dos juízos que fazem dos outros, perguntando a si próprios em que são diferentes, se consideram que são melhores ou piores, se pensam que os outros têm de si a mesma opinião que tem deles.

A verdade nunca esteve, nem nunca estará apenas numa pessoa, na nossa pessoa, na pessoa de quem gostamos muito, na pessoa que nos dá ou nos promete aquilo que nós desejamos muito.

A verdade pode mudar com o tempo, pode mudar como as pessoas e pode mudar com elas. Se uma igreja admite que tem de mudar, porque os tempos mudaram, mal vão todos aqueles que nunca vão querer ser solidários, tolerantes e receptivos às mudanças que o tempo impõe.

Só a verdade dos pobres de espírito e a mentira dos que vivem de más intenções, corre o risco de nunca sofrer mudanças, se não mudar o sistema que lhes assegura a sobrevivência. Neste dia treze de Maio, dia de Fátima com o Papa, não faz mal sonharmos com um milagroso nascer de uma verdade que seja de todos.