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afonsonunes

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15 Mai, 2010

Ainda há papa

Agora que o Papa já está em Roma e os portugueses, finalmente, encontraram o caminho da esperança e a luzinha da solidariedade ao fundo túnel, vale a pena começar a falar de outros assuntos que, sendo muito menos importantes, têm o condão de permitir que, ao abordá-los, o tempo passe sem que tenhamos de pensar muito.

E o assunto que hoje me veio à ideia foi, precisamente, a papa, essa coisa que se mete na boca e sabe mesmo bem quando a fominha aperta. Principalmente, quando não abunda o meio de forrar a malvada com qualquer coisita, pois enchê-la nem pensar, segundo rezam as crónicas que nos são dadas diariamente pelos sabidos.

Sempre pensei que à primeira contrariedade a grande maioria dos portugueses sacrificava as idas ao futebol, visto que os bilhetes custam os olhos da cara. Pensei que deixassem de pagar as cotas dos clubes, por representarem uma renda dos diabos, que nem sequer podem pagar em prestações. Mas, nunca pensei que os clubes podiam abrir falência.

Sempre pensei que os portugueses deixassem de tomar a bica com a leitura do jornal colectivo, ou que deixassem de fumar o seu cigarrito nesse, e em mais dois ou três momentos de lazer, sempre muito curtos, porque o trabalho aperta e com as ameaças de desemprego não se pode brincar.

Ainda cheguei a pensar que a gasolina e o gasóleo iam descer de preço porque muitos portugueses passariam a andar a butes e, com os carros parados, as petrolíferas iriam arrepiar caminho para não terem de fechar as gasolineiras. Mas, mais uma vez me enganei redondamente.

Contudo, com estes aumentos super brutais dos impostos temporários, sim, ainda por cima temporários, pois, bem podiam ser ocasionais, esporádicos, acidentais, pessoais, personalizados, ou lá o que fosse, mas o que é facto é que, não tenho dúvidas, agora é que isto vai tudo para o carvalho, sim, esse que fica ali ao virar da esquina.

Sim, porque não acredito que, nestas circunstâncias, seja suportável continuar com as despesas atrás citadas, com menos uma ou duas dezenas de euros por mês. É claro que haverá os das centenas, mas esses vão continuar, pelo menos, a tomar café com o charuto da ordem. Claro que também tenho pena deles, mas apenas por solidariedade.

Mas, o que mais me surpreende são todos aqueles que ainda acham pouco. Aqueles que queriam muito mais impostos ou muito mais cortes nos vencimentos. Acho muito estranho e só compreendo esta atitude, se eles já não tiverem onde aplicar os balúrdios que levam para casa todos os meses, ou mesmo todos os dias.

Cuidadosamente, disse o que levam para casa e não o que ganham, porque eu não gosto de brincar, nem a feijões. Aliás, eles é que devem estar a brincar comigo e com todos aqueles que vão deixar de comer para poder manter aquelas necessidades mais básicas, tal como esse vício estúpido de comer, ainda por cima gastando dinheiro com isso.

Por mim, já não bebo, nem fumo, nem como, mas também não quero ser mais radical. Há, sempre uma maneira de fazer coisas que não custam dinheiro, ainda que seja necessário puxar um bocadinho pela cabecinha. E nós, os portugueses, sabemos muito bem como resolver problemas difíceis.

É bom esclarecer que não como uma refeição como comia dantes: uma sopinha, um bife com batatas fritas e a frutinha. Agora, só entra cá a papa. Sim, apenas uma papinha leve como a espuma, simples como a água. Porque chegou o tempo de concluir que, com papas e bolos se enganam os tolos.

Mas, para mim, não chegou o dinheiro para bolos. Logo, fico-me pelas papas.