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afonsonunes

afonsonunes

14 Set, 2008

É o costume

 

Abriram os Jogos Olímpicos de Pequim e três dias depois já se ouvia a habitual cantiga de que havia derrotas por todo lado, entre os participantes nacionais, quando, esses mesmos profetas da desgraça, antes do início, eram o cúmulo do optimismo quando atribuíam medalhas a quase todos os concorrentes. É o costume. Antes das competições somos os melhores do mundo, esquecendo que há muitos factores que condicionam as vitórias, além do valor dos adversários, que sistematicamente esquecem.
Para esses profetas da desgraça somos um pequeno país, demasiado pequeno em tudo, quando se trata de bota abaixo, mas, quando vamos competir com outros países, mesmo com os maiores, temos de ser maiores que eles e vencê-los sem margem para dúvidas. Senão, lá virá à baila a nossa triste sina de pequenez e insignificância.
É assim nos europeus e mundiais de qualquer modalidade, principalmente, no futebol e no hóquei em patins e, mais recentemente, em diversas provas de atletismo. Isto para não citar outras modalidades menos conhecidas. Já não basta estarmos entre os maiores do mundo. Querem por força que sejamos mesmo os melhores do mundo. Só o primeiro lugar é digno, só as medalhas dão prestígio.
Nesse aspecto, a nossa televisão pública é o exemplo mais chocante desta teoria de bota abaixo. Tudo vem pela negativa e, muitas vezes, com o sarcasmo cínico de quem apresenta ou de quem gera a notícia, não raras vezes utilizando vulgaridades de fim de reportagem como, vamos lá ver se…, falta saber se…, ou resta ver para crer…, além de trocadilhos de palavras com total despropósito e até desprimor para com entidades ou personalidades que estão muito acima da mediocridade de quem fala delas.
Devia ser precisamente a televisão pública a estimular a auto estima dos portugueses, puxando para cima em lugar de amachucar, realçando o que temos de bom e o que podemos melhorar, em lugar de salientar permanentemente o que é mesquinho e repetindo até à exaustão, durante dias consecutivos, acontecimentos lamentáveis ou outros de pura intenção difamatória, só porque algum tablóide lhe deu relevo. Quantas vezes a televisão pública não passa de uma caixa de ressonância de tudo o que passa nas privadas, ou se publica em jornais ou revistas, quando está em causa o sensacionalismo aberrante do diz-se ou desconfia-se.
Somos bons em muita coisa, desde o desporto, à imaginação, ao trabalho e à solidariedade. Não é forçoso que sejamos os melhores do mundo em tudo. É muito bom que estejamos entre os melhores. E, melhor ainda, que nos esforcemos para deixar de estar entre os piores, como é o caso da descrença a todo o momento propalada, nas nossas indiscutíveis virtudes.