Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

afonsonunes

afonsonunes

17 Mai, 2010

Pedinchices

Dizer que somos um país de pedintes era capaz de ser chocante para muita gente, principalmente, para todos aqueles que mais se fartam de pedir a toda a hora, as coisas mais esquisitas, incríveis até, quando todos vemos que eles não precisam de nada, nadinha mesmo, a não ser de uma certa contenção.

Depois, há quem peça de tudo e a todos, com um descaramento que arrepia, mesmo aqueles que nunca dão nada a ninguém. Quanto mais me pedes menos levas, parece ser o pensamento daqueles que, depois, se desculpam com o argumento de que, se nada dão, é porque nada lhes pediram.

Há os que pedem graças para si próprios e os que pedem desgraças para aqueles de quem não gostam, ignorando completamente que, por vezes, as coisas saem totalmente ao contrário daquilo que se pede ou se deseja. Nestas coisas onde entra a mão do desconhecido, não vale a pena fazer muitos pedidos, pois as dádivas e as negas, já estão escritas na palma da mão desde que se nasce.  

Contudo, há quem insista em pedir a Deus o milagre da sua salvação, ao mesmo tempo que pede ao Diabo a realização dos seus sonhos e das suas ambições, só viáveis através de ódios, bem ou mal disfarçados, e de vinganças geradas por invejas incontroladas.

A esses, que provavelmente se consideram mais crentes em Deus que no Diabo, que se dizem fiéis aos princípios da Igreja, é altura de lembrar que têm uma boa oportunidade de se dirigir ao representante de Deus na Terra, o Papa, que veio até nós há poucos dias, fazendo-lhe os seus pedidos com toda a fé de que puderem dispor.

Mas, não lhe peçam coisas que costumam pedir aos homens de cá e, sobretudo, não se esqueçam de que não adianta exigirem reivindicações a que estão acostumados com muita frequência. Certamente que ele vos ouvirá, tal como vós o ouvistes, mas fará delas o mesmo que fazem certos homens a quem azedamente vos dirigis a toda a hora.

Aos homens nunca se pede de mãos postas ou joelhos em terra, mas a Deus também nunca se exige, seja o que for, com impropérios e sinais de ódios seja lá contra quem for.

Muito cuidado com todos os homens que se consideram deuses, que os há por aí bem à vista, e pregam as suas virtudes sem nunca reconhecerem os seus defeitos. Que julgam que não têm, mas têm, como qualquer outro mortal. Que pensam que as benesses se ganham por contágio, ou por muito se constituírem em adesivo permanente.

Talvez, por isso, há quem não deixe de exercer sobre eles aquela pedinchice que eles sabem que não conduz a nada, que eles sabem que serve apenas para se mostrarem, para mostrarem aquilo que têm dentro de si, contra quem sabem que, assim, não leva nada.

Estes pedinchas lembram-me aqueles exigentes que não conhecem outra maneira de opinar que não seja com a exigência. Talvez porque esta pedinchice e esta exigência sejam dois modelos de pretender levar a água ao seu moinho, ou puxar a brasa à sua sardinha, por formas completamente distintas, mas que ambas podem ser igualmente radicais.

 O país está inundado de pedinchice a todos os níveis e sobre os assuntos mais diversificados, como se já não fosse possível fazer nada sem andar por aí de mão estendida, desde as esquinas das artérias mais concorridas, aos gabinetes mais recônditos de qualquer entidade pública ou privada.

Quantos mais forem os pedinchas ou pedinchões, menos serão os que ainda vão dando alguma coisa.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.