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afonsonunes

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Acabada que está a época futebolística dos túneis já foram divulgadas todas as conclusões dos muitos inquéritos que nos elucidaram sobre quem, dentro deles, viu estrelas na escuridão e quem ficou com nódoas negras em todos os ossinhos das mãos, porque se esqueceu de levar as luvas adequadas à actividade intra-túnel.

Mas isso já lá vai, pois já se sabe quem riu e quem chorou. Neste tempo de defeso, não podíamos ficar sem túneis. Logo, como ao futebol sucede a política e vice-versa, os túneis da bola passaram-se para os homens da crise, que são todos aqueles que falam nela, independentemente dos contributos que lhe tenham dado.

No pacífico túnel de Belém acabo de me aperceber de uma turbulência que não sei bem se a classificaria de normal ou anormal. Mesmo considerando que num túnel é frequente passarem umas correntes de ar, por vezes frescas de mais, por vezes demasiado quentes, por se tratar de um local declaradamente poluído, mesmo aí, o nível deve ser moderadamente aceitável.

Ora, o que não faz sentido é saber que se corre risco dentro do túnel, mas entra-se nele com o melhor dos sorrisos e, à saída, nota-se que o rosto vem fechado, como se o homem do túnel julgasse que só ele poderia modificar o próprio túnel à sua passagem. Não, a turbulência estava lá e tinha de se contar com ela, mesmo no túnel de Belém.

Quem não gosta de turbulência não entra no túnel, pois parece-me que seria querer demais, alguém convencer-se que tem o poder de controlar as correntes, quentes ou frias, que se geram dentro dos túneis, só porque se trata do de Belém.

Neste caso, estava em causa o casamento de correntes dentro do túnel. A questão era, uma corrente quente, podia ou não casar com outra corrente quente. Há quem diga que não porque, argumenta-se, uma corrente quente só podia casar com uma corrente fria, talvez porque sempre ouvi dizer que um quente e um frio é que era bom.

Para quê, eu não sei. Mas sei que de Belém, veio a sentença de que, por vontade belenense, não haveria casamento, nem entre dois quentes, nem entre dois frios, atendendo a que se podia ter considerado a hipótese de chamar a esses casamentos, simplesmente, trapinhos juntos, ou vidinha a dois ou a duas.

Isto só podia acontecer num túnel. Cá para mim, ou é ou não é. Quem não concorda, não aprova. Se quem não concorda aprova, então seria o mesmo que dizer que quem concorda, não aprova. Não admira que se diga que um quente e um frio é bom para o fastio.      

Mas vamos a outro túnel, ou melhor, ao herói dos túneis. Neste momento particularmente difícil para o atravessamento de qualquer túnel, é muito importante que tenhamos um político altamente especializado em túneis, a fim de termos uma visão clara e precisa do panorama subterrâneo do país.

Aqui, essa especialização tem obrigatoriamente de ir buscar toda a tecnologia ao mundo da bola que, aliado ao mundo político, resulta numa simbiose perfeita para que os túneis se convertam na base decisiva e decisora para resolução dos grandes problemas nacionais. Por exemplo, ter uma leitura correcta e atempada das imagens vídeo nos túneis políticos e desportivos.

Nesse sentido, a tuneladora maior do país, foi hoje revigorada com uma revisão completa, com atestado de imprescindível e tudo, à frente da maior vítima de todos os túneis e de todas as ligas cá do reino. Está, assim, garantida uma das grandes prioridades do país, a continuação das guerras saudáveis dentro dos túneis, bem como a continuação da ‘verdadeira verdade’ política e desportiva.

Finalmente, vou entrar no túnel do Jerónimo, perdão, no túnel dos jerónimos, pois aqui não há nada de pessoal, é tudo colectivo como mandam as boas regras do colectivismo dentro dos túneis. O problema é saber se eles fecham o túnel a todos os passantes, ou se o abrem com um sinal de proibição de trânsito.

É sabido que os sinais não são o forte dos jerónimos, tal como dos portugueses em geral. Já tenho ouvido dizer que os sinais não fazem desaparecer a crise, nem servem para encher a barriguinha de ninguém. Tão pouco serviriam para mudar de túnel, que não seria o mesmo que mudar de política.

Daí que os jerónimos, conscientes de que estão obrigados a fazer qualquer coisa com vista à política de túneis, optaram por um sinal de sentido único, mas foram colocá-lo à saída do túnel, apenas visível depois de se ter atravessado o dito cujo.

Acabo de apresentar três exemplos de túneis sem qualquer luzinha lá ao fundo. É assim que se faz de conta que se faz, mas não se faz nada. Ou a gente vê uma luzinha lá ao fundo, quando diz ou faz qualquer coisa ou, se o túnel está completamente escuro, mais vale estar quieto e calado.