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afonsonunes

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20 Mai, 2010

A guita e a gaita

Tenho andado mesmo incomodado com a minha inabilidade para ver as coisas ao natural, como toda a gente as vê, menos eu, evidentemente, o que me leva a crer que os meus óculos devam andar demasiado baços, para não ver com nitidez que motivo leva a nova super star Passos a exigir que o seu par lhe diga quando é que esta música de ocasião acaba.

Não só tenho andado incomodado como me sinto indignado com o facto de Sócrates não ser franco e sincero com o seu par dizendo-lhe, por exemplo, oh pá, o fim da dança está nas tuas mãos ou, se quiseres, nos teus pés, pois basta fazeres um leve sapateado e a música pára imediatamente.

E aí é que está a causa do meu enfado, pois toda a gente sabe que sem música não se pode dançar. E eu, músico como não há outro igual, podia lá suportar um país sem música, que é a base do meu sustento e a razão de ser do meu divertimento permanente, ainda por cima, único garante de que a dança vai continuar.

Mas eu estou moído e ralado com receio de que Passos não entenda, que Sócrates já percebeu, o que quer o seu par. Passos quer dançar mas apenas enquanto sentir que Sócrates ainda tem algumas forças nas pernas, ainda que seja apenas para lhe pisar os calos a todo o momento, coisa que ele suporta com fair-play, pensando na próxima dança.

No entanto, começo a estar chateado por ver que Sócrates não se cansa até àquele ponto de permitir a Passos arrumá-lo a um canto do salão de baile e desatar a dançar sozinho no meio da maralha, tipo abanar o capacete, ou gingando de olhos fechados, como se o seu mundo estivesse para nascer ali, no meio do salão.

No meio disto tudo, sou eu que estou cismado, porque penso que há ali uma data de interesses que eu queria compreender. Se Passos quer dançar sozinho, não tem mais que dar uma tampa a Sócrates, assim, sem mais aquelas, olha vai à tua vida que eu trato da minha. Sim, porque as vidas não se tratam só a dar a mão pois, como é óbvio, por vezes é preciso dar com os pés.

Na verdade, quem começa a estar cansado sou eu, pensando que, se calhar, Sócrates até lhe agradecia o favorzinho de o livrar do fogo do inferno. Sim, porque o fogo já anda muito próximo e o calor já aperta por todo o lado. Começo a pensar que Passos está com medo que o calor também lhe comece a chamuscar as pestanas.

Eu podia perfeitamente estar calado à espera que a música fosse interrompida por um leve sapateado de Passos, mas estou a ver que Sócrates não lhe quer mostrar os seus talentos, desconfiando que, logo a seguir, com a sabedoria da bonança à vista, se acabaria de imediato a música e, consequentemente, a dança.

Agora, sim, começo a ver tudo bem clarificado. Passos apenas dança na esperança de vir a ver Sócrates queimado e arrumado. Mas não só. Passos só faz o tal sapateado quando souber e puder dançar sozinho, com músicos que lhe toquem nos cordelinhos de que ele gosta. Mas não só. Que haja guita para ele e para todos os seus músicos. Mas não só. Que lá de fora venham os sinais que ele agora ainda ignora.

Finalmente, de desolado passei a conformado, pois já estou um pouco aliviado por ter descoberto que, para Sócrates, não é uma questão de guita mas é uma gaita. Guita já ele sabe há muito que não há. Resta saber por quanto tempo dura esta gaita.