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afonsonunes

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Talião entendeu no seu tempo que, olho por olho e dente por dente, era uma maneira séria de fazer justiça. Talvez por isso se tenha chegado ao ponto de muita gente, quase toda a gente, já não ter olho nenhum, nem dente algum, consequência da desalmada criminalidade com que, já então, se confrontava a sua gente.

Daí que hoje em dia, com a evolução da malandrice, e para que as coisas entrassem na ordem, teriam de se agravar substancialmente as penas, substituindo sempre um órgão menor por um maior. Por exemplo, quem provocasse a perda de um dente, teria de sofrer a perda de um olho ou, conforme a gravidade, um outro órgão superior.

É que isso do dente por dente, nos dias de hoje, já não é pena nem é nada. E então, com a quantidade de dentes cariados e até completamente podres, uma limpeza geral era uma bênção da justiça. Tal como mais olho menos olho de gente que não vê nada, principalmente, de gente que não quer ver nada.

Pior ainda, caso daqueles que vêem sempre tudo ao contrário, teria de estar bem claro na lei, que um olho desses não podia valer mais que uma simples unha encravada. Já os que vêem demais, ou os que conseguem ver aquilo que mais ninguém consegue ver, teriam de ser sentenciados com o sacrifício da língua, para não dizerem o que não viram.

Sei perfeitamente que tudo isto é muito bonito de dizer, mas muito feio quando toca a executar. Porém, estou deveras convencido de que, se esses casos caíssem na minha esfera de competência, era até demasiado fácil, porque o meu sentido de justiça está mesmo dentro do espírito de Talião, com as devidas actualizações.

E a primeira dessas actualizações era centrar a justiça na política, e não o que acontece actualmente, em que é a política que está centrada na justiça. Ora, para mudar esta centralidade anacrónica, eu punha todos os deputados, sem excepção, sob escuta permanente, só para ver se conseguia saber onde é que eles poisam o pensamento.

Julgo que não andaria longe da verdade, depreender que, conhecendo o pensamento deles, também facilmente deduziria tudo aquilo de que eles têm conhecimento. E aqui entraria na lei de Talião, embora não adiantasse nada, começar a arrancar dentes e olhos a torto e a direito, porque eles mastigavam na mesmo e falavam mesmo às cegas.

Era aqui que entravam as minhas actualizações. Quem tivesse um conhecimento, por via de um pensamento, teria obrigatoriamente de confessar dois conhecimentos seus, comprovadamente virgens, daqueles que merecessem uma abertura de telejornais, por exemplo, conhecer uma sentença antes de ser pronunciada pelo respectivo juiz.  

Não me venham com essa da inconstitucionalidade, só porque todos os cidadãos têm direito a ter conhecimentos. Aí, ponto e vírgula, pois isso depende da espécie de conhecimentos. E depende, principalmente, do conhecimento que os outros têm do nosso conhecimento.

Parece evidente a complexidade destes conhecimentos, principalmente, se eles habitarem na cabeça de qualquer ignorante, de qualquer néscio, ou de qualquer ‘analfabruto’, completamente destituído de conhecimentos. Muitas vezes destituído até da mínima capacidade de pensar, logo, isento da posse de pensamentos.

E volto à lei de Talião. Com todas estas complicações, sou de parecer que só eu estaria em condições de a aplicar, com todos os dentes cerrados e os olhos bem abertos, sempre na direcção de todos aqueles que não fazem ideia da importância das actualizações.

Obviamente que me refiro às actualizações de pensamentos e de conhecimentos.