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afonsonunes

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25 Mai, 2010

Os três mestres

Preciso urgentemente de dar um rumo à minha vida e encalhei na escolha de quem deve ajudar-me nessa tarefa inglória da qual, confesso abertamente, não consigo desenrascar-me sozinho. Sinto que estou tri inclinado na escolha de um mestre, sem saber para que lado hei-de cair, atendendo a que estou a ser fortemente pressionado, qual tripé com os três a tremer, ou a vibrar, sei lá.

O primeiro dos três mestres é perito em contas, o segundo especializou-se em lutas poéticas, enquanto o terceiro obteve o título de cidadão do mundo. E aqui estou eu, ‘à rasquinha’, sem saber verdadeiramente do que preciso para puxar a minha vidinha para cima, uma vez que está mesmo muito em baixo.

O homem das contas não se cansa de me garantir que só ele pode endireitar-me a vida, argumentando que uma boa vida sem boas contas, não conta para nada. O poeta lutador, por sua vez, garante que não pode haver nada melhor na vida que lutar permanentemente na busca de boas rimas, pois as contas só atrapalham. O cidadão do mundo não vai na conversa dos seus concorrentes e diz-me que só o conhecimento do mundo me pode levar ao sucesso.

Perante este ‘trilema’ estou constantemente a coçar na cabeça, sem saber a qual deles recorrer para me salvar, mas receio que acabe cheio de caspa e árido de cabelo, sem tomar uma decisão.

Já sugeri ao homem das lutas poéticas e ao cidadão do mundo, porque razão não se deixam de pruridos e vão ter com o homem das contas. Em princípio, ambos lucravam muito ao aprenderem a fazer contas como ele pois, no meu caso, passaria a dar-lhes muito mais credibilidade no caso de aceitar os seus serviços.

Porém, a minha sugestão não foi bem aceite. O poeta recitou-me a canção do bandido, que conhecia perfeitamente, acrescentando depois que não recebia lições de ninguém, muito menos de quem sabia apenas fazer umas contitas que, por acaso, só davam certas, se terminassem com resto de zero. O cidadão do mundo demonstrou-me que sabia muito mais de contas do que ninguém, pois até já sabia que o poeta estaria sempre no número três.

Resolvi então tentar voltar as coisas ao contrário, sugerindo ao homem das contas que lutasse com todas as suas forças até conseguir fazer um poema à sua ditosa pátria muito amada. A resposta não se fez esperar. Informou-me que até era capaz de contar as sílabas de cada verso pelos dedos, para que o poema saísse perfeito. Quanto à pátria, cantou-me o hino com um tom, que me convenceu completamente de que o sabia de cor e salteado.

 Aproveitando a maré de demonstração de conhecimentos do homem das contas, tentei saber se também sabia fazer contas em espanhol ou em chinês, porque talvez o cidadão do mundo lhe pudesse dar uma ajuda, dada a sua vasta experiência global. Não, não precisava. O homem das contas foi preciso e conciso. Eu é que sei tudo. Já estive em ‘Freixo de Espada à Conta’ e em ‘Vila Nova de Tabuada’ e vi que as contas deles são iguaizinhas às minhas.

Não sei porquê, mas estes três mestres, pelos seus conhecimentos profundos, já me convenceram de que posso estar descansado que, qualquer deles, me trata da vida com toda a competência, pois as minhas contas não enganam, mesmo que as deles possam ter algumas falhas de somenos importância.

Afinal, não há ninguém perfeito, embora o homem das contas esteja convencido que só pode ser primeiro, enquanto o cidadão do mundo só sabe que não vai ser terceiro. Estou farto de fazer tentativas matemáticas para descobrir quem vai ser o segundo. É que o homem das lutas poéticas só sabe que nunca teve medo de ninguém, logo, isso já é ganhar.