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afonsonunes

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27 Mai, 2010

Deputar

O povo português anda há trinta e não sei quantos anos a deputar num regimento de gente que se senta comodamente nas bancadas da Assembleia, com direito a soneca com óculos escuros ou sem eles, com direito a bar, refeitório, viagens, palratório, asneiradas, e muitas outras prerrogativas que agora não me apetece enumerar.

Depois, ando cá desconfiado que ainda têm um salário, mesmo aqueles que têm reformas ou estão à espera delas por dias, ou aqueles que, também segundo as minhas desconfianças, têm uma profissão para as horas vagas dentro do horário normal do deputado.

Há quem afirme que deputar é uma grande responsabilidade, só porque quem deputa é encarregado de uma missão que os eleitores lhe confiaram. Cá para mim, isso é uma grande treta, porque tudo indica que os eleitores, ao desenharem uma cruzinha no boletim de voto, que metem na urna, quiseram simplesmente assinalar o que vêem nos cemitérios: muitas sepulturas, cada uma com sua cruz.

É voz corrente que muitos desses que deputam, parecem mais mortos que vivos, embora ainda batam palmas e soltem uns piropos do tipo de bancada de bola, quando o barulho ao redor os não deixa bater a sorna costumeira.

E o mais curioso é que alguns deles ainda têm o mau hábito de exigirem pedidos de desculpa, via superior hierárquico, como se estivessem lá em casa a ouvir os filhos a fazer queixinhas uns dos outros. Tenho cá um pressentimento que na Assembleia Nacional que Deus haja, não havia nada que se parecesse com isto.

Se querem deputar com vivacidade, com ou sem ética, com ou sem respeito uns pelos outros, porreiro, pá, vamos a isso, mas que todos tenham os mesmos direitos. Mesmo os mais tortos e as mais tortas, têm de aguentar, tal como os outros aguentam com eles e com elas. Tudo dentro da reciprocidade fraterna, da igual disputa e da correcta maneira de deputar. Tudo sem fofoquices nem queixinhas, que isso cheira a uma espécie de ‘gás pide’ e a mariquices.

Há quem defenda que se deve deputar com duzentos e trinta e quem pretenda reduzir substancialmente esse número. Não basta reduzir só para acertar números e baixar o orçamento. É preciso que se reduzam a zero, as nódoas que por lá se topam logo nos passos perdidos, usando a lixívia adequada, selectiva e suficientemente rectificativa do modo de deputar.

Claro que baixar o orçamento é muito importante, pois o nosso nunca se levantou e, apesar disso, vai baixando todos os dias. Há uma voz que se levantou agora nesse sentido. É preciso baixar o orçamento da Assembleia. Óptima ideia. O meu aplauso incondicional.

Só me fica cá uma duvidazinha a pairar no meu espírito desconfiado. É que o autor da ideia, por acaso, não deputa, logo, a medida não lhe iria beliscar nem um pelo do rabo.

Mas, nesse aspecto, eu até deputava com ele.

 

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