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afonsonunes

afonsonunes

04 Jun, 2010

Preocupações

Eu próprio estou extremamente preocupado com a situação desta coisa, mas ainda não deixei de falar de política, e até de futebol, por causa das preocupações que me dão a dita coisa. Parece-me que uma coisa não tem nada a ver com a outra, porque são coisas completamente diferentes, que não roubam espaço mental umas às outras, nem são incompatíveis entre si.

Por essa ordem de ideias, quando estamos preocupados com uma coisa já não podemos falar de nenhuma outra, com o argumento de que não podemos dispersar as nossas atenções daquilo que é essencial. Resta saber ainda o que é essencial para nós e se isso também é essencial para os outros. Daí que seja engraçado que tenhamos de concentrar o nosso palavreado numa única coisa, a tal que nos preocupa.

Convém deixar bem clara, uma outra coisa, que é o resultado dessa nossa concentração. Resulta pura e simplesmente que o palavreado concentrado não resolve nada, desde que não passe de palavreado, ainda que muito preocupado. Logo, podemos distrair as atenções por onde nos apetecer, que a coisa não adianta um milímetro sequer.

Quando estou preocupado porque o meu gato não tem apetite, isso não significa que eu também deva perder o meu, por solidariedade com o bichano. Até porque qualquer gatinho sabe que não lucrava nada com esse meu sacrifício. Logicamente que ele agradecia muito mais, mas do fundo coração, que eu chamasse o veterinário.

Pois, também não entendi lá muito bem a que propósito vieram para aqui os animais e o veterinário, visto que eles não são coisas, e nada têm a ver com a tal coisa que nos trás a todos muito preocupados. Mas, que eu saiba, nem eu, nem ninguém, perdeu já o apetite por causa de uma coisa de que toda a gente fala, mas que não passa de preocupações.

Já experimentei fechar-me em casa e não falar com ninguém, e até aconselhei os meus familiares, os amigos e inimigos, bem como os conhecidos e desconhecidos, a fazerem o mesmo, em sinal de solidariedade para com todos aqueles que querem trabalhar e não podem, não querem, ou não os deixam.

A verdade é que continuo muito preocupado, sem resultados à vista, que deve ser muito curta, pois uma medida destas era para resolver a coisa de maneira radicalmente eficaz, ou não estivessem em causa para aí umas seiscentas mil criaturas. Se isto não merece uma grande atenção e preocupação, não sei do que se há-de falar.

Se o meu bichano falasse, diria que a coisa só se resolve com obras e não com palavreado de preocupação que, no entanto, não dá para tirar o sono a quem a tem, embora tire a vontade de falar de outras coisas que, por acaso, não interessam às seiscentas mil almas já referidas.

Ora essas seiscentas mil criaturas representam seiscentos mil votos quando uma urna se abrir na primeira oportunidade. Que podem fazer com que se ganhem esses votos com preocupações bem expressas, mesmo que não representem a menor esperança de resolver a coisa que está em causa.

No meu modesto entender, o problema está em saber a que coisa se refere a grande preocupação. Se àquela coisa que sai da boca para fora, se à outra coisa que ainda anda escondida, mas que é, talvez, a maior preocupação de alguns preocupados.

Os meus amigos conhecem-me e eu também os conheço a eles. Mas isso não é um certificado de garantia para cada uma das partes. Eu posso estar preocupado com toda a gente, ao mesmo tempo que toda a gente se pode estar marimbando para o que eu digo e mesmo para o que eu penso.

Preocupações, sim, mas vamos lá ver se esta coisa não tem nada a ver com a coisa do voto.