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afonsonunes

afonsonunes

05 Jun, 2010

Vou ali, já volto

Não digo onde fui porque haverá quem não goste que se diga a verdade com todas as letras e a verdade é que fui dar uma volta, enquanto estava a falar um sujeito que não tem as minhas graças. Como não posso ouvir aquelas vozes do tipo Patxeco Pedreira quando está com a pedrada, vou a um sítio aonde gostava de o mandar, cada vez que o ouço.

Enquanto vou e venho, penso profundamente num mundo sem indivíduos com uma qualquer pedrada, como o Pedreira, ou como alguns apedrejadores do seu grupo discursivo. Aliás, até já me dei ao trabalho de pensar num mundo sem pedras, mas só daquelas que ocupam permanentemente as duas mãos que deviam estar a fazer qualquer coisita.

Quando caio em mim, penso que há muitos Pedreiras que não aguentariam viver num mundo assim, porque passam o tempo da sua jornada, à pedrada indiscriminada, ou selectiva, ou ainda personalizada, sem se lembrarem de que têm telhados de vidro e, uma ou outra pedrada transviada, das suas, pode perfeitamente partir-lhe algumas telhas do seu telhado.

Têm a sorte, ou o privilégio, dos Pedreiras não se agredirem deliberadamente uns aos outros, senão havia de ser o bom e o bonito. É por isso que eles, não sendo programaticamente aderentes às amplas liberdades, são quem mais as reclama, não para que lhes sejam aplicadas, mas para que eles as possam usar sem qualquer consequência.

Por vezes sinto cá um impulso que me tenta a usar os mesmos métodos, como se uma voz interior me dissesse com aquela vivacidade de quem diz, força Patxeco! ... Mas, acontece que eu não sou  Patxeco, não gosto do Patxeco, nem era capaz de meter nojo a ninguém.

Prefiro ir ali, e quando me apetecer, voltar calmo e sereno, como quem não ouviu nada nem ninguém. Como diz o outro, a vida são dois dias. Se, com frequência, perdermos um minuto com quem não merece o nosso tempo, basta fazer as contas a quanto tempo perdemos durante um ano, por exemplo.

Haverá quem pense que, enquanto vou ali e volto, também estou a perder o meu tempo. Puro engano, porque nesse lapso de tempo, além de ganhar para mim, o que não perdi com outros que o não merecem, ainda aprendi uma regra básica de economia em tempo de crise que é, não devemos gastar cera com ruins defuntos.

Ainda por cima com defuntos que sempre foram ruins, porque nada mais fizeram na vida que não fosse fazer cera, quase sempre de má qualidade, daquela que cheira a sebo bolorento.

Começo a ter a sensação de que, se não mudar rapidamente de assunto, tenho mesmo de ir a qualquer lado, mudar o disco por lá, e voltar com outra conversa, porque esta está demasiado tétrica e um pouco sebenta para o meu gosto, que fará para o dos outros.

Reconheço, no entanto, que há por aí bem pior, sempre segundo o meu criterioso julgamento de juiz em causa própria, virtude que tenho vindo a aperfeiçoar nas minhas deambulações a que, comodamente, dei a designação de, vou ali, já volto. Neste momento, já estou a ir.