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afonsonunes

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Volta não volta vem a lamúria de que muitos portugueses têm de procurar ganhar a vida em outros países, como se isso fosse uma desgraça irreparável para o nosso desenvolvimento. Essa treta já foi desmistificada por gente que está acima da corneta da desgraça que certos arautos da dita não se cansam se soprar.

Apetecia-me dizer que estes arautos, como não fazem cá falta nenhuma, faziam um grande serviço ao país e aos seus compatriotas, se resolvessem ir pregar para outras paragens pois, mesmo com eles, é sempre possível acontecer uma mudança, ainda que ela pareça impossível. E assim, surgirem no novo destino, como gente reciclada e da maior utilidade.

Em sua substituição, chegam ao nosso país aos milhares, homens e mulheres de todas as origens, vindos muitos deles e delas, de países bem mais desenvolvidos que o nosso. Mesmo assim, vieram, na esperança de que haveria por cá um buraquinho onde pudessem descobrir a sua utilidade à nova comunidade. Muitos têm conseguido, outros nem por isso.

A grande maioria dos nossos compatriotas, lá fora, são um exemplo de trabalho e dedicação às profissões a que se dedicam logo, contribuem para o desenvolvimento dos países que os receberam. Só por isso, já estão a contribuir para o bom nome de Portugal, melhor do que se tivessem ficado por cá a dizer mal de tudo e de todos. 

Não podemos cair na tentação de pensar que quem se vai embora é insubstituível, seja no que for. É óbvio que quem vê boas oportunidades ao seu alcance deve ir ao encontro delas, ainda que estejam no fim do mundo. Já foi assim com os nossos antepassados e sempre foi assim ao longo dos tempos.

E não foi por isso que o país parou ou ficou com menos cérebros ou menos especialistas de qualquer área, ou ainda com menos artesãos, trabalhadores rurais ou da construção civil. Quando uns se vão, outros aparecem. E quantos mais forem, mais serão os que aparecem, porque as oportunidades crescem e estimulam os que ficam.

O excesso de oferta de qualquer dessas classes, esse sim, é altamente pernicioso, porque criará a incapacidade de todos poderem ser aproveitados.

Quanto mais portugueses estiverem espalhados pelo mundo, maior será o prestígio que dão ao nosso país, através dos exemplos de dedicação e competência que semeiam onde se encontram. Longe de fazerem cá falta, porque temos cá outros, precisamos muito mais da boa imagem do país que eles vendem lá fora.

Rico é o país que se dá ao luxo de ter tanta gente a prestigiar-lhe o nome no exterior. Sim, essa é a melhor e a maior riqueza de que dispomos. Porque a riqueza chama e cria riqueza. Se não temos capacidade para guardá-la toda cá dentro, isso é sinal de que constitui uma fortuna que podemos pôr a render nos cofres do mundo inteiro com juros altamente compensatórios.

É por isso que neste jardim à beira mar plantado só faz falta quem nele quiser estar de alma e coração lutando com todas as suas forças para torná-lo sempre maior e mais solidário. Tal como lutam todos aqueles que optaram por engrandecê-lo longe do torrão natal e que hoje são particularmente lembrados nas comemorações anuais do dez de Junho.

Aos restantes, os que lutam diariamente para ridicularizar quem tudo faz para lhes dar o que pode e tem, esses, os que ficam cá, eternamente contrariados e insatisfeitos, fazem mal em não tentar a sua sorte por outras paragens. Não há nada pior que viver permanentemente infeliz.

Estranhamente neste dia de discursos e de apelos à união e coesão de todos, é também a ocasião para meter farpas de divisões misturadas com aqueles apelos dramáticos que nos deixam a pensar no que é que eles querem afinal.

Por mim, só queria um pouquinho de coerência no que se diz e no que se faz.