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afonsonunes

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A língua portuguesa é muito rica, o que não impede muitos portugueses de a empregarem muitas vezes em situações de uma pobreza franciscana, mesmo considerando que uma ou outra liberdade linguística não constitui atropelo mortal, nem tão pouco suspende as liberdades criativas de quem gosta de falar e escrever.

O discurso presidencial das comemorações do dez de Junho foi considerado adequado mas excessivo, pelo candidato presidencial Manuel Alegre, insigne poeta e político conceituado da nossa democracia.

Como poeta, não custa reconhecer-lhe o direito à liberdade de dar uns pontapés na gramática, normalmente, por causa das rimas e do rigor silábico dos versos. Como político, aceita-se perfeitamente que, como tantos outros, até dêem pontapés na atmosfera, para conseguirem o que julgam ser o maior realce para as ideias que pretendem fazer passar.

Portanto, como um candidato à presidência é um político, embora haja quem se considere acima desses fazedores de erros, está justificado qualquer pequeno ou grande mau trato, mesmo alguma indelicadeza de oratória, ou até aquelas que só o passam a ser para quem percebe menos disso que qualquer estrangeiro acabado de aterrar aqui.

É, com certeza, o meu caso. Talvez porque eu seja um inadequado para comentar certas coisas de excessiva adequação à cena política nacional. Logo, se eu sou um inadequado, tenho falta de adequação, seja lá para o que for.

Segundo o meu obtuso raciocínio, a adequação não tem falta nem excesso, senão deixa de ser adequada. E, se uma coisa é adequada, é porque está na medida correcta da sua utilização, pois se for excessiva é porque é exagerada, logo, não é adequada.  

Bom, repito que isso é para mim, que sou um inadequado. Talvez excessivamente inadequado, mas isso também não me preocupa muito, porque não devo ser caso único.

Todo aquele burburinho, e por consequência, também este, teve a sua origem, penso eu, num vulgar e indesejável adjectivo, que bem podia ter ficado fechado na gaveta da secretária do autor do texto que lhe deu voz de soltura.

Insustentável, é o palavrão que tanto pode ser apenas adequado, como adequado mas excessivo, ou até substituído por uma dificuldade. Vá lá a gente perceber estas liberdades linguísticas que aparecem sem ser convidadas nestas cerimónias solenes de tanta pompa e circunstância.

Também podia dizer-se, sobretudo agora que já passou a cerimónia, que o discurso foi adequado mas insustentável.

Por outro lado, suponho que também teria sido normal e correcto dizer-se que a situação do país se tornou adequadamente insustentável.

Mas, segundo o meu obtuso ponto de vista, ainda acrescentaria que talvez a situação do país seja insustentavelmente adequada e o discurso insustentavelmente inadequado.