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afonsonunes

afonsonunes

13 Jun, 2010

Acredito na mentira

Sinceramente, juro que acredito em todas as mentiras que oiço, vindas da boca de todos os mentirosos que eu conheço de ginjeira. Se não acreditasse do fundo do coração, tinha de me penitenciar pelo facto de os considerar mentirosos. E isso é coisa que me não passa pela cabeça, tão certo estou de que, verdade, verdadinha, é o meu juízo acerca deles.

Há quem acredite nas mentiras porque as considera verdades, ao mesmo tempo que considera verdadeiros os maiores mentirosos do planeta. Obviamente que não estou entre esses crentes, porque as mentiras em que acredito são aquelas que me chegam com origem certificada como mentiras e não como verdades.

Há muito tempo que aprendi a distinguir entre uma mentira, uma verdade e uma dúvida. Mas, se há coisa que o meu dedo mindinho esquerdo não deixa escapar, é uma mentirinha piedosa ou uma mentira enorme, que não cabe na boca de um alarve. Há no meu dedo pequenino um feeling muito maior que o do besbanco, com todos os feelings dos seus maiores clientes juntos.

Não consigo perceber a razão de tanta sensibilidade à mentira do meu mindinho esquerdo, mas penso que ele lhe junta uma dose razoável de bom senso, para reforço das suas capacidades anti-minas, visto que ele detecta tudo o que é subterrâneo. Logo, sensibilidade e bom senso, não sei onde é que já ouvi isto, é o melhor detector de mentiras.

O meu maior ponto fraco é saber distinguir as verdades, quando elas são mesmo verdades, e se apresentam completamente à margem das mentiras. Tudo porque o meu dedo mindinho direito ainda não aprendeu a distinguir as meias verdades das meias mentiras. Depois, noto que não há uma colaboração perfeita entre os meus dois mindinhos.

É por isso que há uma zona nebulosa entre as chamadas verdades verdadinhas e as meias verdades que, como é óbvio e lógico, andam associadas às meias mentiras. E é aqui que residem as fragilidades dos meus dois dedos mindinhos que, por vezes, me obrigam a estar quietinho e caladinho, para não meter o dedo onde não devo.

Por exemplo, não consigo meter o dedo na dúvida. Porque a dúvida, por mais que me tente, não me convence. A dúvida é, e será sempre, o campo onde os duvidosos se espreguiçam e se coçam uns aos outros, incapazes de puxarem um pouco pela cabeça de forma a ultrapassarem esse campo minado e perigoso.

Mas há, e sempre houve, quem faça da dúvida a sua certeza, quem veja nela a possibilidade de realizar o seu sonho dourado de alcançar uma felicidade fugaz ou um momento de glória, nem que acabem, como muitas vezes acabam, com o rebentamento da mina mesmo debaixo dos seus pés.

Mesmo assim, a dúvida continuará a dominar a vida desses estropiados, que nada mais encontram para bálsamo das suas feridas, que a sua verdade, onde eles nunca vão encontrar a realidade de uma mentira, por mais desilusões que o tempo lhes vá trazendo.   

Se eles nunca vão acreditar na mentira que são as suas verdades, eu vou acreditar sempre nas mentiras que me dizem os mentirosos. Porque sei que são mentiras e sei que eles nunca dizem a verdade.