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afonsonunes

afonsonunes

18 Jun, 2010

O bom caminho

O dia dezassete de Junho de dois mil e dez veio clarificar muita coisa que anda obscura há muito tempo no panorama político nacional, sobretudo com implicações profundas no funcionamento discursivo dos palradores de serviço permanente dos partidos políticos.

E até os palradores a título individual vão perder argumentos para a sua retórica do culpado único dos males do país, que é sempre o primeiro-ministro que esteja em funções, seja qual for o partido a que pertença e a época em que exerça o seu mandato.

Agora, segundo o que veio a lume no dia citado, aperta-se o controlo das decisões económicas, que vão passar a ser ainda mais acompanhadas de perto do que já eram, pelos burocratas europeus, esvaziando a margem de manobra dos chefes de governo dos países membros da comunidade do euro.

Ora, assim sendo, lá se vai a possibilidade de se fazerem maroscas às claras, que todos os governos faziam, em claro benefício dos seus partidos e dos seus amigos do peito. Que todos os governos espalhavam por tudo o que mexesse com o dinheiro dos cofres que alguns dos contribuintes enchem todos os anos com os impostos, que só os parvinhos vão pagando.

Num país como o nosso, em que toda a gente está habituada a dar conselhos aos governantes nacionais, não me passa pela cabeça o que vai ser a partir de agora, pois duvido que em Bruxelas se oiça o alarido que por cá se faz diariamente contra todas as decisões, sejam elas boas ou más.

Também não me passa pela cabeça que haja um consenso nacional tendente a transferir para lá, os mimos que até agora eram concentrados em S. Bento, bem como as queixinhas que diariamente chegam a Belém. Já para não falar nos recados de Belém para Bruxelas, quando acabar a desnecessária cooperação estratégica.

Também se começa a perceber a razão porque já não interessa mandar o governo para casa. É que, se ele já manda pouco, está em vias de não mandar nada. E não custa mesmo nada acreditar que ninguém gosta de ser pau mandado. Mal por mal, é preferível estar em posição de mandar bocas, que sempre é mandar alguma coisa.

É por isso que todas as desculpas já são boas para não derrubar o governo. Até há pouco tempo, assistíamos a um clamor diário de bota abaixo, como imperativo de salvação nacional. Agora vemos estranhamente o movimento contrário. Aguenta aí os cavalos, porque a salvação nacional está exactamente em manter o governo em funções.

Eu, que não boto nada abaixo nem acima, acho toda esta feira de interesses, uma comédia muito divertida. Se houvesse dinheiro nos cofres, todos queriam ir para o governo ainda antes de já. Mas, como está tudo vazio, até têm medo que os obriguem a encher os cofres com o que têm no bolso deles.

Dizem os espertos e os inteligentes que é por causa da crise. Que isso seria agravar a dita. Mas, por outro lado, dizem que o governo nos está a levar para o abismo. Bem recentemente, ingleses, holandeses e belgas, deram essa suposta cabeçada na parede, com as consequências que os privilegiados de cá já devem ter notado. Mas não comentado.

Eu, nada parecido com aquelas sumidades, diria que não há nada como ter coragem e mostrá-la nos momentos difíceis. Quem sabe até se, com eles no poder, com todos eles, estes momentos não ficariam fáceis para o país, de um momento para o outro. Os audazes nunca se devem encolher em circunstância alguma.

Mas, a coragem deles é andar permanentemente a bater em mortos. É querer continuar a ter mortos em quem bater a toda a hora. Sim, porque são eles que dizem que o governo já morreu há muito tempo. Então, daqui lhes lembro que enterrar os mortos é um acto de misericórdia.

Além disso, a oportunidade é única. Ainda teriam alguns dias para mandar alguma coisa, enquanto os burocratas europeus se aconchegam nos seus ninhos. Depois, daqui a alguns meses, já tanto fará ter um governo de mortos, como de inteligentes recém-nascidos.

Uns e outros, talvez mereçam percorrer o caminho que em breve lhes será indicado. Tendo em conta o passado dos caminhantes, e para evitar tanta conversa oca, até pode ser um bom caminho.