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afonsonunes

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Que fique bem claro desde já que não faço parte de qualquer comissão de inquérito, logo, também não participei na elaboração de qualquer relatório. Mas, isso não me impede de fazer a minha declaração de voto sobre as conclusões que eu tiro, dos relatórios elaborados por outros, mesmo que as declarações de voto deles sejam completamente ao contrário das minhas.

Em primeiro lugar, esclareço que eu voto sempre na seriedade e na coerência das pessoas e das organizações o que, desde logo, me dá direito à declaração do dito, após a aprovação do relatório final. Com mais um milhão de razões, quando todos os comissionistas usam desse direito, para justificar a razão porque aprovam um relatório do qual discordam.

Justificado, portanto, o meu direito a esta declaração de voto, mais que justificada.

O relatório concluiu com a aprovação de duas vezes sim. Os aprovadores lá sabem porquê. Mas eu estou completamente em divergência porque a minha conclusão é duas vezes não.

O primeiro não, é para todas as comissões de inquérito, porque elas nunca inquirem nada. Elas, as comissões, vasculham à medida das conclusões que, à partida, cada um já leva para elas. E quando se vasculha selectivamente, deita-se fora o que não interessa e aproveita-se aquilo que é nitidamente lixo memorial.

O segundo não, é para a rica pobreza, ou a clara obscuridade, da distinção entre a virtude inquiridora e o defeito inquirido. Todos os inquiridores são um manancial de pureza, um poço de água cristalina, enquanto todos os inquiridos são, à partida, um bando de arruaceiros que não merecem qualquer crédito, desde que não lhes falem ao jeito.

Politicamente, a minha declaração de voto, vai no sentido de fazer um apelo à serenidade e à reflexão das pessoas de bom senso que, eu não tenho dúvidas, estão todas à espera da minha opinião para decidirem a sua. Senão vejamos.

Gostava que alguém me dissesse se conhece uma única pessoa que nunca tivesse mentido. Se não há ninguém que nunca tivesse mentido, não percebo a razão de tanto escândalo quando pensam que um inquirido mentiu, só porque o pensamento é livre, mesmo que divague por via indirecta. A verdade é que, se toda a gente mente, os inquiridores estão obviamente incluídos nos mentirosos.

Portanto, mais mentira menos mentira, mais grossa ou mais fininha, deixem lá continuar a mentir, tanto quem se julga puramente verdadeiro, como quem nem sabe fazer mais nada que mentir. Se o mundo fosse feito apenas de verdades, íamos ter todos muitas saudades de certas mentiras que são o sal das nossas vidas.

Os inquiridores também não suportam que alguns dos inquiridos sejam fiéis àquele princípio que viria a gerar o comércio entre as pessoas e os povos: eu te dou uma coisa a ti, tu me dás uma coisa a mim. Parece que isto era conhecido pelo comércio de trocas.

O princípio é o mesmo de que, quem dá um murro no amigo, pode sempre esperar que o amigo lhe dê também um, a ele. É o princípio da justa retribuição.

Portanto, deixemos as coisas assim. Quem vai à guerra dá e leva. No fim, quem mais der, ganha a dita. Bem sei que aqueles que têm sempre o rabo a tremer, por qualquer motivo, gostam mais da lei da protecção, sua e dos seus, e do poder de impedir que os outros se defendam.

É que, nesta guerra não há inocentes para serem defendidos. Nem há cobardes para serem poupados. Há gente com princípios e gente que não olha aos fins que usa. Deixemos que a guerra funcione e os resultados finais têm de ser aceites como sequelas de guerras que ninguém quis, ou ninguém pôde evitar.  

Esta é a minha declaração de voto sobre um relatório que não li, que não votei, nem aprovei, nem tão pouco recusei. Portanto, é uma declaração de voto com tanta seriedade e coerência como outra qualquer declaração de voto, das muitas de que tenho tido conhecimento.