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afonsonunes

afonsonunes

20 Jun, 2010

Adoro gente teimosa

Como nota prévia devo dizer que este adorar é uma força de expressão. Em boa verdade não adoro ninguém. Mas é chique dizer que se adora seja lá o que for e eu vou na onda.

Se eu fosse um génio da escrita, a primeira coisa que fazia era um hino à teimosia. Tenho um fascínio muito especial por ela, que sempre me mostrou como se consegue chegar muito para além de capacidades e vontades que nem sempre seriam suficientes para avançar num determinado sentido, sem essa força chamada teimosia.

Força que pode ser exercida em diversos sentidos dando ao teimoso a possibilidade de superar barreiras que o tiram do anonimato e da mediocridade da inacção, ou o metem naquela categoria de pessoas que fixam um alvo e nunca mais o largam de vista. Nem que tenham de passar a ser cegas para tudo o resto que anda à sua volta.

De qualquer forma tenho uma imensurável admiração por todos os teimosos. Uns justificam essa admiração com o talento das suas decisões ou opiniões, com as quais aprendo muita coisa que não sabia. Outros justificam a minha admiração com o facto de me ensinarem a evitar fazer o papel que eles fazem a toda a hora.

Para aqueles que já sabem tudo e que ensinam toda a gente, deixo no ar uma lembrança que pode ser apanhada, ou pode ser rejeitada, deixando-a voar livremente, ao sabor do vento e ao calor do sol que tanto aquece como queima. Lembro pois, que é com os teimosos que mais se aprende, por muito que certos teimosos pensem que não ensinam nada a ninguém.

Adoro os teimosos que não raras vezes me fazem rir, quando não à gargalhada, tornando-se nos meus queridos e divertidos ocupantes do meu tempo de lazer, porque sempre gostei muito de uma boa palhaçada, daquelas que se encontram nos locais do costume, com os intervenientes do costume, interpretando os números do costume.

À primeira vista, devia parecer que essas palhaçadas, de tão vistas e repetidas, se tornariam monótonas e cansativas. Qual quê. Nada disso. A originalidade das palhaçadas reside precisamente no facto de ser tudo o do costume, mas sempre com um ou outro pormenor que quebra a tendência de se deixar o palhaço a falar sozinho. 

Isso não traria qualquer problema pois, mesmo a falar sozinho, o palhaço teimoso não perderia a graça normal que o caracteriza, o dom da palavra fácil e a indiferença pelo vazio exterior que o rodeia. Contra tudo isso, ele tem o calor e a luz de outros que com ele fazem coro.

Se um teimoso já anima muita gente, um grupo deles provoca uma animação extraordinária, à qual eu, pessoalmente, sou extremamente sensível. Porque sou incapaz de me animar a mim próprio, vai daí que adoro tudo e todos os que contribuam para a minha animação.

Penso que está bem justificada a minha adoração por gente teimosa.

Tenho cá um pressentimento que haverá quem esteja a perguntar em quem tenho estado a pensar ao longo do tempo que me levou a ter estes desabafos. Ainda que fizesse um esforço sobre humano, estou convencido que não conseguiria chegar lá.

Contudo, se puxasse dos meus galões de teimoso de primeira e fosse ao álbum onde guardo os grandes teimosos e as experiências que eles trouxeram até mim, aí eu teria muito lucidamente uma memória repleta deles. Nomes para quê?