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afonsonunes

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26 Jun, 2010

Zarolhos e zarelhos

Não há nada mais animador que um nadador salvador dizer para uma vítima prestes a afogar-se, que está irremediavelmente condenado a ir ao fundo nos próximos minutos. É animador e consolador ter uma opinião sincera de quem sabe da coisa, de quem tem um curso que serve efectivamente para salvar vidas.

Ora, o nadador salvador, com a sua verdade e o seu saber do que fala, com o seu devotado esforço para ajudar o afogado, eleva-lhe o moral, precisamente no momento em que está prestes a baixar ao convívio com os peixinhos. Assim, lá vai desta para melhor, consolado por saber que a situação dele era mesmo insustentável.

E o nadador salvador, impávido e sereno, perante essa situação, sente-se absolutamente realizado na sua missão de salvar, por se lhe ter deparado um pré afogado que, antes de o ser, já o era. É assim, desta maneira simples, que o salvador se salva si próprio de ter de molhar os calções, resolvendo o problema com o seu olhar atento e um último adeus ao afogado.

Depois, no funeral do infeliz, houve quem alvitrasse que o nadador salvador não fez tudo o que estava ao seu alcance para salvar uma vida. Houve até quem fosse mais longe e afirmasse que ele não tinha feito nada daquilo que lhe competia. Mas, a sabedoria fala sempre mais alto. E ela ditou que o nadador salvador salvou a sua própria vida.

Não estou a ver lá muito bem porquê, mas cheira-me a que isto tem muito a ver com algo que se passa na politiquice nacional que é, exactamente, o que se passa com a minha zarolhice crónica. Depois lá vem a desculpa habitual de que não estou a ver bem quando, na verdade, não estou a ver nada direito.

Nem eu nem eles, pois isso acontece muito naturalmente aos zarolhos que, como se sabe, andam permanentemente com os olhos tortos, ou são cegos de um olho, ou ainda, dão azo a que lhes atribuam a honrosa qualificação de vesgos. Por mim, não tenho pejo nenhum em auto intitular-me de tudo isso.

O mesmo não acontece com os políticos zarolhos e com toda a zarolhice que gravita à volta deles. E, além de gravitarem, muitos deles vegetam, transformados em autênticos zarelhos, que mexem e remexem, que não param, que não se calam, que conhecem tudo menos a sua própria ignorância e, sobretudo, a sua muito apregoada boa fé.

Só assim se compreende que haja zarolhos e zarelhos nas mais altas instâncias políticas do país, também a nível de grandes nomes de conceituados analistas, como de catedráticos especialistas de todas as áreas que, diariamente, se contradizem nos meios de comunicação social.

Depreendo que, ou não conhecem a Constituição e as leis do país, ou não sabem interpretá-las. Se não for uma coisa nem outra, fazem o malfadado frete de sacrificar a sua reputação passando por cima de tudo, só para arranjar um artifício justificativo da camisola partidária que vestem.

Depois, cá mais em baixo, há os que estão prontos a aceitar tudo sem pensar, desde que lhes falem ao jeito das suas ideias pré concebidas e tendenciosas. Estes não serão sequer zarolhos, porque vêem bem dos dois. Só que ambos vêem apenas para um dos lados. Mas são eles os zarelhos por excelência, remexendo e revolvendo tudo e mais alguma coisa para a esquerda e para a direita.

É por isso que a situação é perfeitamente sustentável enquanto a zarolhice e a zarelhice, andarem de mãos dadas, como se constituíssem uma união que já ultrapassou a fase precária do namoro. 

 

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