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afonsonunes

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01 Jul, 2010

Vá lá, Maria! ...

Não há amor de união que resista a certas incongruências de cônjuges que não souberam adaptar-se a todas as facilidades que lhes foram concedidas, no sentido de bem desempenharem a sua espinhosa missão de conquistar o outro, após o tradicional ou convencional nó matrimonial.

É o caso da Maria, que deu muito trabalho a conquistar, mas que se tornou imprescindível ao seu pretendente, depois de saber que a oferta de uns livrinhos de culinária iam fazer dela uma especialista em tudo aquilo que ele tanto gostava. E quando ele gosta de um petisco, é o mesmo que dizer que, se ela o fizer especialmente para ele, então é garantido que ele gosta mesmo muito dela. 

Depois da má experiência das douradinhas acidentalmente encarvoadas, ele fez tudo para que a sua Maria, a Maria dos seus petiscos, se aproximasse do fogão e tirasse dele a magia de um sonho que lhe fazia crescer água na boca, quase tanta como aquela que a sua algarvia Ria Formosa contem na maré cheia.

Porém, o destino teima muitas vezes em pregar as suas partidas mais cruéis. Ainda antes de Maria se ter atirado aos livrinhos de culinária com aquela sofreguidão que ele tanto desejava, apareceu lá na cozinha dele e dela, uma equipa de especialistas que dominavam de cor e salteado todos os grandes cartapácios sobre a matéria.

Com a água a correr pelo canto direito da boca, por causa da inclinação da cabeça, naturalmente, ele viu esfumar-se nesse preciso momento o sonho dessas douradinhas cuja receita só vinha nos livrinhos que em tempos dera à Maria. Mas a Maria, ironia do destino, já só podia ir à porta da cozinha, cumprimentar a equipa que a enchia completamente.

Mas que saudades que ele tinha das douradinhas e a sua Maria ali tão perto. Quantas vezes pensou em tentar uma daquelas experiências antigas que, por graça, até lhes chamava umas asneiras, mas teve receio de que a fumarada libertada da cozinha fosse interpretada no exterior como sinais de fumo de uma qualquer mensagem a pedir socorro.

A verdade é que só lhe apetecia pedir socorro à sua Maria, para que lhe falasse das célebres papas de milho, à noitinha, antes de adormecer, como se fosse uma historinha dos tempos em que não adormecia sem ela. Mas, a Maria, a essa hora, estava sempre super ocupada a estudar o protocolo do dia seguinte, sempre muito comprido e muito exigente, como tudo o que competia ao casal.

E então lá vinha a cortante lembrança da Ria Formosa cheia de encanto e nostalgia mas, sobretudo, que lhe trazia ao nariz aquele cheirinho a mar, a espuma, a peixe, que lhe fazia cócegas na garganta, como se por ela estivesse a escorregar um carapauzito muito pequeno, tão pequenino, que lhe trazia à memória aquele amiguinho de infância a quem ele tratava sempre por jaquinzinho.

Mas que saudades do jaquinzinho, quando nem sequer o podia encontrar nas suas visitas fora de portas, onde lhe impingiam sempre uns pratos caros e tão demorados às refeições, que não lhe deixavam tempo para aquelas idas às casas dos petiscos, onde podia encontrar o amigo jaquizinho.

Uma frustração, pensava ele ao mastigar aquelas coisas que só agravam o défice e deixam o estômago a dar horas, sobretudo, por causa das conversas de embalar, dos que ficam a seu lado. Ainda, vá lá, é um mal menor, quando é a Maria que o acompanha e fica sempre a seu lado pois, assim, sempre podem falar de petiscos que ela sabe fazer e lhe promete que um dia virá…

Então, uma grande preocupação lhe assalta o espírito. Esse dia virá, daqui a pouco ou muito tempo, quem sabe, embora o seu conhecimento seja muito extenso e muito profundo, tal como o conhecimento que têm dele, como exemplo de uma geração e modelo de vida. Apenas com o senão de ter de se acomodar à falta dos petiscos da sua Maria.

Mas já jurou solenemente que quando o deixarem, a primeira refeição que tomará a sós com ela, será uma sardinhada algures no Algarve. Pode acontecer que a Maria convide os netos para essa refeição tão especial.