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afonsonunes

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Elas não podem conceber, e eu também não, que alguém lhes fale em tom de repreensão, a elas, que são umas virgens puríssimas ou, vá lá, umas donzelas sem mácula, que não ofendem ninguém, que não criticam o seu pior inimigo, quanto mais o seu amigo de estimação, a quem apenas desejam que se desviem um bocadinho para elas passearem as suas vaidades.

Obviamente que elas, são eles e elas, os tais que quando não têm argumentos de resposta às repreensões vindas do lado, logo vêm com a borrada da desorientação, como se isso lhes tirasse de cima, o peso da responsabilidade das posições que assumem, quer elas sejam boas ou más, mas que têm de aceitar que ninguém é obrigado a concordar com elas, tal como elas, as donzelas, não concordam com as dos outros. 

Assim, dá a ideia que queriam viver no reino daqueles que se julgam no direito de ralhar com todos e em que todos têm a obrigação de ficar de boca calada a ouvir os seus ralhetes. Até julgam que os seus próprios ralhetes são a salvação do país, enquanto os ralhetes dos outros são sempre demonstrações de desorientação, manifestações de autoritarismo, de incompetência, de desespero e de outras virtudes que não descortinam em si próprias, pudicas donzelas. 

Talvez façam parte da comunidade daqueles miúdos queixinhas que estão permanentemente a provocar os seus companheiros de brincadeira mas, à primeira provocação que um dos outros lhes faça, logo gritam pela mãezinha, ou pelo sapiente papá, com grande berreiro, dando conta do inadmissível mal que acabam de sofrer.

Depois, se não sai ralhete superior em seu favor, lá vem a birra, o nervoso miudinho, com toda a lengalenga de quem tenta convencer a parolice do seu habitat, onde são efectivamente muito fortes. Sobretudo, quando ao seu coro se juntam outros coros que usam a mesma táctica, ou seja, todos ao barulho, para tentar atrair quanto mais barulhentos melhor.

Agora, no que eu não acredito, é na história de que alguém anda desorientado. O que eu vejo a todo o momento, são os muitos que souberam, e continuam a saber orientar-se, sempre no sentido de encher os próprios bolsos, mesmo sabendo que estão a conduzir o país para o abismo, que alguns já vêem ali mesmo à sua frente.

E, já vai sendo tempo de se enxergar que, os que mais se orientam, não são os que mais são acusados de se orientarem. Basta pensar que o orçamento de estado não tem lá verbas para orientações pessoais daquela espécie. E se tivesse, lá estariam os olhos permanentemente esbugalhados dos seus controladores para as expurgar.

Em boa verdade o orçamento do estado tem muitos buracos por onde todos os vígaros aprenderam e se habituaram a meter a mão impunemente e esses, sabem controlar tudo o que é do estado, mas não se controlam a si próprios, nem os governantes têm meios para os controlar devidamente. Porque os vígaros souberam proteger-se em devido tempo, contra todas as investidas, e agora estão completamente imunes a qualquer ataque.

Portanto, convém não confundir as coisas. Quem fala em desorientação, está já a orientar as suas euforias para o banquete que já não lhe sai do pensamento. Quem só vê desespero, já se sente na rota que lhe promete uma viagem sob as luzes fortes do estrelato. Quem passa a vida a falar de emergência social, já devia ter esclarecido quem e como a deve pagar. Quem agora já se sente preparado para avançar, é porque já lhe cheira a qualquer coisa.

A qualquer coisa que ainda há poucos dias era bancarrota, mas parece agora que já é menos rota. Talvez já suficientemente remendada para se poder pensar em alívio. Talvez até pensar em esperança de que sobre alguma coisita para os paroquianos ávidos de quebrar o jejum, depois do farta brutos de outros tempos. Sim, mas agora não dará para fartar a vilanagem.     

Mas nunca dará para que a verdadeira desorientação e o verdadeiro desespero, que só tinham razão de existir na verdadeira pobreza, que é real, quase sempre aceite e resignada, silenciosa, não dará nunca mais para que ninguém que possa, queira contribuir para a eliminar, porque ela, a pobreza, dá jeito a muita gente que passa a vida a lamentar a sua existência.

A verdadeira emergência social não se resolve com a hipocrisia das palavras de conveniência. De uma vez por todas é preciso e urgente determinar quem, concretamente, vai pagar os seus custos, se querem que exista a tal emergência, porque sempre ouvi dizer que o dinheiro não cai do céu.

E, que eu saiba, sejam quais forem as políticas e os governos, o dinheiro tem mesmo de cair dos bolsos de alguém que ainda não está no céu. Enquanto não disserem claramente a quem o vão tirar, que deixem de andar a vender ilusões.      

Porque todos nós já estamos preparados, há muito, muito tempo, para aturar gente bem preparada para nos manter neste inferno que nos querem vender como se fosse o céu.