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afonsonunes

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Se os políticos dissessem o que estão a pensar no dia de hoje, e que eu adivinho sem qualquer dificuldade, lá se ia a ideia dos vinte por cento por água abaixo, pese embora a adesão de Manuel Alegre e do bispo da Guarda. Em ambos os casos as contas não seriam fáceis de fazer, dadas as diversas proveniências dos rendimentos base dos descontos.

Mas adiante que o problema seria deles. O que para mim é mais complicado, diz respeito à tentação que certos membros da igreja têm em se meter na política pura e dura, como se lhes competisse governar ou evitar o desgoverno deste país mostrando entre si, como mostram os políticos, visões completamente opostas para os mesmos problemas.

Sim, porque nem os bispos nem os padres fogem a esse direito em democracia de terem as suas ideias e as suas tendências partidárias. O problema é que a igreja deve respeitar os políticos, como os políticos devem respeitar os membros da igreja, metendo cada qual a foice na sua seara. Até por respeito às suas clientelas bem específicas.

Nem quero imaginar o que se diria se o primeiro-ministro ou qualquer outro ministro se atrevesse a aconselhar os bispos a tomarem determinadas iniciativas ou a evitarem outras que não lhes parecessem correctas. Assim do tipo de criticarem as horas a que devem ser feitas as orações ou o conteúdo de cada uma delas.

Ora, o senhor D. Carlos achou por bem que os políticos cristãos entregassem vinte por cento do seu ordenado para minorar a pobreza no país, entrando pela maneira fácil de atribuir ao estado, ao governo, a existência desse terrível fenómeno, como se lhe coubesse o simpático papel de alinhado com a oposição, neste caso.

Nem quero levantar o problema da distinção, em termos de contribuições, dos crentes e não crentes, pois isso seria susceptível de esbarrar nos preceitos constitucionais, como agora está tão em voga, quando se quer contestar alguma coisa ou alguém.

Faltou a D. Carlos, como tem faltado à oposição, dizer concretamente quem está disponível para pagar aquele encargo, aprovando medidas concretas que o traduzam em obras no terreno. É preciso que fique bem claro, quem aprova e quem recusa aprovar, na hora das discussões e votações concretas no lugar próprio.

É evidente que não são os vinte por cento dos ordenados dos políticos cristãos, nem que se lhes acrescentasse os vinte por cento dos políticos não cristãos, que resolveriam o problema da pobreza no país, tal como não se resolve com conversa fiada cá, como em qualquer outra parte do mundo. Quando toca a dar, quase todos dão, mas apenas uns passos atrás.

Parece-me que já ouvi em qualquer lado que, a Deus o que é de Deus, e aos homens o que é dos homens. Não queiram os representantes de Deus ser mais papistas que o papa, tanto mais que, em muitos casos, o que vemos, é que eles gostam de fazer figura com o que o estado lhes dá mas, dos seus haveres, parece não sair todos os contributos que poderiam disponibilizar.   

Se também me atrevi a intrometer a minha foice em seara alheia, e não sou o único, lá vai mais uma proposta honesta e sincera, após chegar à conclusão que ainda não apareceu nenhuma que, tal como a que vou apresentar, consiga resolver a questão.

Se a coisa não se resolve pelo lado da dádiva, então que se minore pelo lado da dispensa de contribuições. Uma vez que aqueles que podem, não querem contribuir, então que aqueles que precisam, deixem de contribuir para os que não precisam.

Daí que os vinte por cento propostos por D. Carlos, bem podiam ser substituídos pela dispensa dos peditórios nas missas enquanto durar a crise, sabendo-se que a maioria dos fieis vivem com muitas dificuldades e todos os cêntimos lhes dão imenso jeito.

Parece-me que até nem estaria mal pensado. E o bispo da Guarda e Manuel Alegre ficariam bem mais descansados.