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afonsonunes

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27 Jul, 2010

Não pode ser

Se eu digo que não pode ser, a minha prima Laurindinha já disse várias vezes, pode lá ser. Não sei bem se ela quer dizer o mesmo que eu, assim como aqueles que dizem: eu não acredito. Pelos vistos, o país está cheio de incrédulos, que já serão muito mais que aqueles que acreditam em tudo e mais alguma coisa.

E é neste dilema de vários anos que decorre a vida do país. Não interessa que isto vá tudo para o galheiro ou que estejamos à espera que se cumpram os desígnios de um ou outro iluminado, que está bem seguro, pormenor por pormenor, de tudo aquilo que a luz que dele emana o salvará do dilúvio.

Luz que, acredita, o salvará, a ele, porque os outros, todos os outros, que se lixem. Mas, há uma coisa que não pode mesmo ser. É aquela coisa em que, os que acreditam em tudo vêem passar uma, outra e mais outra coisa, e nada. Assim, como é que se pode pensar que algum dia vão conseguir pôr-lhe a mão em cima?

A minha prima Laurindinha já me confidenciou que anda ali mão de Deus. Aquela mão que o poupa ano após ano, não deixando que outras mãos, muitas mãos, segundo alguns demasiado sujas ou demasiado limpas para outros, consigam, finalmente, apanhar o sujeito com a boca na botija.

Não pode ser, que depois de tantas tentativas de lhe lançar sobre o pêlo, as manápulas crispadas, venham sempre dizer-nos que, afinal, não havia nada. Mas, nada como? E lá vem a minha prima Laurindinha com a dela. Só Deus lhe tem valido, porque ninguém deste mundo, o poderia salvar de tantas e tão ferozes investidas.

Eu não acredito que sejam os próprios autores das sucessivas investidas que acabem sempre por se vergarem a recuos, prescindindo daquilo que sempre desejaram ardentemente. Não posso acreditar que, depois de sossegarem uns tempos, voltem sempre a investir contra ele, sabendo de antemão que, depois, têm de voltar a recuar.   

Também não acredito que algum dia os autores das investidas e, principalmente, os seus apoiantes e delirantes seguidores, venham a abdicar da felicidade que sentem frente a um televisor que lhes enche a alma de emoções fortes, mais fortes que qualquer um daqueles desportos ultra radicais.

Até a minha prima Laurindinha já tem vindo à janela, como diz a cantiga, atraída pelo arraial de felicidade que irradia de grupos mais ou menos numerosos que se manifestam exactamente no sentido de que é inacreditável que, os que sabem, não sejam capazes de dizer aquilo que todos eles sabem sem sombra de dúvida.

Ai Laurindinha, eu sei que tu gostas muito de andar nas nuvens, talvez porque queiras estar mais perto de Deus, julgando que Deus acabará por te proteger a ti, como dizes que tem protegido o tal, das tais investidas.

Pois eu penso que, se há protegidos nesta treta, esses são precisamente todos aqueles que acreditam em tudo e, ainda mais protegidos são todos aqueles que não dizem mesmo, aquilo que deviam dizer com toda a clareza.

Mas, que fique bem claro, Laurindinha, não é Deus que protege toda esta gente. Não pode ser.