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afonsonunes

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Diz o povo que é melhor cair em graça que ser engraçado. Não tenho quaisquer dúvidas em afirmar que há coisas que nem têm graça nenhuma, mas às quais há quem atribua mais importância que a uma graça divina, diria mesmo que lhes dedicam milhentas graçolas, às quais só se pode dedicar um somítico sorriso amarelo.

O mau gosto nunca pode ter graça, mas os engraçadinhos julgam que conseguem esse milagre de a ter, talvez porque vejam os outros, os seus semelhantes, como clones do seu feitio degenerado, ou o fruto de qualquer transgénico que eles pensam já homologado com a qualidade que atribuem a si próprios.

Ao pensar nestas coisas não evitei que o pensamento se me desviasse para dois procuradores e respectiva chefe, que acabam por se manifestar vítimas ‘de uma campanha de destruição da honorabilidade, do carácter e do profissionalismo dos magistrados responsáveis.’

Apetecia-me soltar uma daquelas exclamações que não acalmam a dor, nem o desejo, nem a vontade de rir até rebentar com as entranhas. Antes de me precipitar, lembrei-me que aqueles três não se devem lembrar do que são campanhas, nomeadamente, aquelas de que eles foram autores e protagonistas. Foram e continuam a ser.

Quanto a destruição, sugeria que fossem ao dicionário, além de que os lembraria que é um substantivo que vem do verbo destruir, coisa que é o que fazem os fogos, as inundações, os fora da lei e outras pestes. Tudo isso e muito mais significam destruição. Depois, há os destruidores, que são os provocadores da dita. Ainda depois, há os que se consideram destruídos, mesmo depois de terem sido os principais destruidores, nos mais variados sentidos.

A honorabilidade será alguma coisa que se coma? Sinceramente, há tanto tempo que não a encontro, que pensei que já tivesse sido mais uma daquelas espécies completa e irremediavelmente extintas. É com total surpresa que verifico que ainda há alguém que reivindica tê-la. Depois de tanto a ter destruído nos outros. Será possível?

Fica-me uma dúvida muito grande sobre aquilo que vi escrito. Os três falam no carácter, coisa que, por mais que estique o meu raciocínio, não descubro um fiozinho dele que me leve a concluir que ele anda por aí. Talvez, e aí está a minha dúvida, eles estejam a falar dos caracteres que inundaram as páginas dos jornais e serviram de base de dados aos telejornais.

Resta o profissionalismo, essa coisa que o tempo e o erário público bem clarificaram. O trabalho dessas três vítimas do descalabro popular que os atingiu, já foi arquivado duas vezes. E estamos para ver o resto. Vamos só imaginar que o profissionalismo tinha ditado que 2003 tinha sido o ano do fim da comédia.

Se calhar, todos os TGVs já estavam quase a funcionar, sem problemas de verbas, e todos os destruidores já estavam à sombra, graças à acção e ao aproveitamento de sete anos de trabalhos de buscas frutíferas, de tanta gente que andou, ao que parece pelos resultados, esses sete anos, a gastar dinheiro em buscas inúteis, dinheirinho que tanta falta fazia. Mas, tudo indica que ainda vamos ter o terceiro arquivamento, lá paro o ano de S. Nunca à Tarde.

Ah, com licença, ainda falta lembrar que eles, os três, também falaram de magistrados responsáveis, naquela curta comunicação aos parceiros. Acho muito bem que tivessem prestado esse acto de justiça aos seus colegas íntegros que ainda existem e, certamente, continuarão a existir. Estou certo de que era desses que estavam a lembrar-se.

Mas esta era apenas a primeira coisa sem graça nenhuma. Agora me lembro que tinha falado em três, no início deste escrito. Acontece que, com a ausência de entusiasmo e a falta de graça desta coisa, me esqueci das outras duas. E por pouco não me esquecia desta também. Pena é que ela não tivesse sido arquivada logo à nascença, pois assim temos de falar de um aborto tardio.