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afonsonunes

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18 Ago, 2010

Passos de Coelho

Tenho cá um pressentimento de que o nome de Pedro de Passos teria um impacto muito superior ao de Passos de Coelho. Não vale a pena perguntarem-me porquê, pois eu não saberia responder. Digo isto com toda a naturalidade, pois não sou daqueles que sabem tudo e nunca seriam capazes de dizer que não sabem.

Pedro de Passos, até poderia ser comparado ao Senhor dos Passos, atendendo a que têm sido inúmeros os passos dados em procissões de muita fé, isto sem contar os passos perdidos ingloriamente, coisa que nenhum santo tem no seu curriculum.

Agora o que mais me espanta, é quererem convencer-me de que há passos de coelho, quando sempre vi todos os coelhos a saltitar ou a correr, mas nunca a andar aos passos, lentos ou ligeiros, mesmo quando não tenham atrás deles, aqueles caçadores que levam à sua frente matilhas de cães ruidosos e sedentos de ferrar o dente em chicha vivinha da costa.

É por causa disso que me parece muito mais sensato falar em Pedro de Passos, porque Pedro sempre é nome de apóstolo, com muito prestígio desde os primórdios da doutrina que sempre professou, ainda hoje credor de devoções incontáveis e imorredoiras. Daí que me pareça que em lugar de Passos de Coelho, lhe ficasse muito melhor o nome de Pedro de Passos.

Tal significaria que o seu caminho seria triunfal ao longo dos tempos, sem aquelas hesitações e quebras de fé que sempre acontecem, mais tarde ou mais cedo, a quem se lança em busca da sua terra prometida, quantas vezes apenas sonhada. Nos passos de Pedro seria, com certeza, uma caminhada conseguida.

Depois, Pedro de Passos dá a sensação aos observadores muito miudinhos como eu, que se meteu em competição com outros Pedros, esses autênticas lebres de corridas, onde ninguém as supera, até porque é exactamente essa a sua função. Manter-se sempre à frente da corrida, para que sejam elas a manter o ritmo que lhes é exigido pela organização.

Está-se mesmo a ver que um Pedro de Passos nunca poderá competir com um Pedro de Corrida, pois estaríamos perante uma situação de confronto entre uma espécie de coelho que saltita e uma lebre que salta como deve ser. E assim, um coelho no meio de lebres é um espécime deitado aos bichos.

Fica demonstrado à evidência que Passos de Coelho não resolvem nada nesta coutada abrasada de lebres que correm que se farta atrás de tudo o que seja massaroca dos milheirais dissimulados entre as florestas que ardem mesmo sem se ver. Quando lá chega o Passos de Coelho, cheio embora de belas tiradas de moralidade, nunca conseguirá mais que apanhar uns grãozinhos de milho perdidos, nem jamais conseguirá que comam todos dessas diabólicas massarocas, como tanto propala.

Escusa bem de querer mostrar que tem o que não tem, ou seja, pernas para competir e vencer as lebres que tem a seu lado, e do seu lado. São exactamente as mesmas lebres que têm devastado o terreno, onde vislumbram as tais massarocas, algumas delas, armazenadas cuidadosamente nas frescas montanhas da estranja, para mais tarde roer tranquilamente.

Um outro, o Pedro Coelho, provavelmente primo muito chegado da família, talvez um pouco, ou muito confuso, vai criando o hábito de dizer que não quis dizer o que disse e, com grande sentido de humor, vai dizendo que não faz aquilo que disse que ia fazer. E que a opinião pública diz que ele não pode mesmo fazer.

Não basta levantar poeira, ainda que seja muita poeira e muito densa, em todas as direcções, tentando meter lá pessoas no meio de lebres, para que estas fiquem mais à vontade, e desloquem a direcção das objectivas que estão sempre por perto.

É bem verdade que se precisam passos firmes e decididos sobre um caminho que está longe de ser percorrido com justiça e convicção, sobretudo, protegendo convenientemente toda a massaroca de todas as lebres furtivas, que se estão marimbando para todos os coelhos que nunca darão passos na direcção que, decididamente, lhes trave as corridas desordenadas.  

Se, com Pedro de Passos não passa nada, com Passos de Coelho nunca sairemos da cepa torta.