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afonsonunes

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Está quase tudo à espera que se conclua o buraco que nos há-de engolir, mas ninguém deixa de cavar nele. Parece até que esse buraco vai salvar a vida de muita gente desiludida apesar de nem pensar um bocadinho na comodidade e bem-estar de que desfruta, quantas vezes à custa de muita outra gente que trabalha no duro para lhe proporcionar o que não merece.

Há quem cante de dia e de noite aquela canção que é sobejamente conhecida. Canção que tem assim uns ares de ‘faducho’ corrido na letra e muitas notas que de musicais só têm a semelhança às de um refrão estafado que não passa de um choradinho ou de um refilar persistente e irritante.

E é assim que se reclama a solução dos problemas do país, quais cigarras que cantaram todo o Verão, sem repararem que se aproxima o tempo em que nem sequer se vai poder cantar. Tanto mais que até as formigas amealhadoras correm o risco de verem os seus pecúlios destruídos pelas tempestades que as cercam.

Muito cantam os profetas da desgraça como muito se desculpabilizam os tranquilizadores dos incrédulos, uns e outros nitidamente num falsete que muito anima os cavadores do buraco que se vai alargando cada vez mais, sem que haja uma voz que acorde consciências e faça parar a força dos rumores que cavam mais que as picaretas.

Desde sempre se ouviu dizer ao povo que os cantores tinham mesmo de cantar primeiro, para que depois, a seguir, tivessem a bebida de recompensa pelos seus esforços vocais. Daí, a expressão da sabedoria popular que bem avisava: canta que logo bebes. Nada que se pareça com o que acontece hoje: o que mais há é quem beba para cantar e depois não canta nada.

Mas hoje também se canta demais sem pensar no que se vai beber a seguir ou se, eventualmente, se vai mesmo beber alguma coisa. Mudou a música, mudou a bebida. Até a velha borracheira resultante de comemorações ocasionais, se tornou numa autêntica bebedeira permanente resultante de sorvedouros de mistelas oratórias.

Quem está lá em cima sabe que não pode fazer o que deve, porque quem insistentemente lhe exige que o faça, nunca lho aceitaria, uns porque nunca ficariam satisfeitos por quererem muito mais, outros porque nunca aceitariam que se fosse tão longe. As medidas seriam sempre curtas para uns e demasiado compridas para outros.

Quem está cá em baixo já não sabe se as medidas lhe assentam bem agora, no corpo emagrecido, ou se essas medidas, que lhe foram tiradas em tempos de flatulência, voltarão a estar no tamanho que já vestiu outrora. Com incertezas destas é muito difícil olhar para cima sem as dúvidas entre as músicas de quem canta bem ou de quem canta mal.

Porque há quem ande no meio, entre os de cima e os de baixo, sempre a cantar com o sentido posto na bebida de recompensa, uns cantando o fado, outros preferindo o vira, mas sempre fora do ritmo dos que estão lá em cima, que vão mais no romantismo do tango, talvez porque vão tomando consciência de que a tanga não anda longe.

Canta que logo bebes, simples ou ilustre cidadão português. Não é a cantar que foges do buraco que também tu estás a ajudar a cavar, consciente ou inconscientemente. Que mais não seja, porque te calas, ou falas demais, perante o que vês a toda a hora e que não te preocupa minimamente.

Por exemplo? És dos que trabalhas para viver, ou és dos que vivem do trabalho dos outros por puro prazer de cravar o estado? És dos que te esforças pelo cumprimento da lei, por parte de todos, ou és dos que aplaudes todos os que fogem da lei como o diabo da cruz, para burlar o estado?

O estado não é este ou qualquer outro governo, não é este ou outro primeiro-ministro, não é este ou outro presidente da república, não é o mecenas que muitos pensam e querem que seja, a bem ou a mal.

Cada qual sabe o que canta e o que gosta de ouvir cantar aos outros. Mas se tem os gostos musicais estragados, então, o buraco também esperará por ele. E, inevitavelmente, por muito que cante, a bebida nunca chegará.