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afonsonunes

afonsonunes

23 Set, 2010

Mas que bom!...

 

Este desabafo está completamente fora do contexto nacional, melhor, é um desabafo que atenta contra o sentimento e o estado de espírito de todos os portugueses. Sim, ou será que ainda haverá algum camarada ou companheiro que tenha razões para acreditar que ainda se vive qualquer momento bom neste país?

Aqui, eu levanto o meu dedo para discordar desse seguidismo que, na minha opinião, não é geral. Principalmente porque descobri uma maneira nova de fazer a minha vidinha com toda a facilidade e tranquilidade, mesmo sendo um cidadão com tendência para a actividade acelerada e até um tanto nervosa.

Não há melhor tranquilizante que saber que posso fazer umas extravagâncias do caneco sem prejudicar o meu orçamento familiar, que até nem é dos mais baixos, mas fica muito aquém dos que, sendo chorudos, lhes provocam reais ataques de choradinhos.

Pois é, mas são esses que têm agora a possibilidade de apresentarem a factura de umas almoçaradas ou jantaradas a uma televisão que, com toda a pompa e muita circunstância, lhes paga o gozo e lhes dá ainda maior gozo em apresentá-los como os seus heróis de uma aventura cheia de água na boca dos que andam no país a ver navios. 

É verdade que nunca me quis comparar a tais felizardos mas desta vez não vou tolerar que passem a meu lado sem me darem uma oportunidade igual ou, bem o espero, um pouquinho maior, devido ao facto de, por norma, me contentar sempre com pouco, ou mesmo nada, como é meu hábito muito antigo.

Daí que já comecei a arquitectar essa factura e a pensar quem vai ser o feliz estabelecimento que a verá na televisão, uma honra de respeito que vale muito dinheiro. Estou inclinado a não me meter em almoços ou jantares, até pela falta de originalidade, pelo que a coisa não se torna tão fácil como à primeira vista me pareceu.

Como na política e no futebol anda tudo numa foleirada pegada, também tirei daí o sentido, embora a televisão abrisse muito mais os cordões à bolsa se eu lhe desse para lá um ou dois nomes daqueles de bater todos os recordes de audiências, ainda que eu revelasse apenas o meu sonho de alguém me ouvir contá-lo.

Depois havia o problema de inventar o que ia colocar na factura. É evidente que não punha lá o IVA, mas tinha de lá pôr os artigos ou os produtos. É claro que não podia lá incluir o trabalho de bater palmas, ou o valor de cada slogan gritado, mas podia meter lá os pastéis de bacalhau. Mas esses tinha de os pagar, mesmo sem IVA, e lá se ia o lucro.

Já sei. Vou fazer uma longa viagem pelo norte, com um táxi contratado para meu serviço exclusivo, dia e noite, por muitos dias. Quero ver tudo. O Douro, os vinhedos, os campos verdejantes, O Minho todo a cantar de galo, as maravilhas da ´Transmontânia’, os trauliteiros não sei de onde, toda, mas mesmo toda a fruta lá de cima, que penso levar com fartura e variedade, no táxi e também para o hotel, que já sabe como é esse negócio.     

Já sei que isso vai custar um balúrdio. Não interessa. É isso mesmo que eu quero. Se houver quem pense que a fruta não era para aqui chamada, eu respondo que é verdade. Mas quando é que a fruta não resolveu grandes imbróglios?

E eu quero resolver o meu problema, logo, deixemos estar a fruta, muita, boa e variada, que, aposto, não é por aí que a factura vai ser rejeitada pela televisão que me vai pagar tudo isso com muita alegria, muito espectáculo e muito divertimento.

E depois, digam lá se não tenho razão para exclamar: Mas que bom!...