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afonsonunes

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25 Set, 2010

Hoje há caracóis

 Em Castelo Branco, ali mesmo com a Sé na frente dos olhos, encontramos um café que nem precisa de ter na porta o dístico que apresenta um caracol e a mensagem a dizer que hoje há caracóis. Não é preciso porque toda a gente sabe que ali é a catedral do caracol, tal é a qualidade do petisco que ali se pode degustar.

É o velho Café Beirão, esse recanto minúsculo e modesto, numa casinha muito antiga, mas que enche uma esplanada, nas noites quentes de Verão, com quase todas as mesas a exalar esse perfume do molho dos pratinhos de caracóis. Dizem alguns entendidos que não se encontra melhor em parte nenhuma.

Bom, mas não é minha intenção vir para aqui fazer propaganda a passo de caracol, mas sim dar uma sugestão que me parece da maior utilidade para o país inteiro. E não há dúvida de que o país precisa, como de pão para boca, de quem dê boas sugestões, já que reside nessa falta, a persistência da tão discutida crise.

Então aí vai. O presidente vai receber os líderes para que cada um deles, em separado, lhe faça uma resenha das suas ideias para ultrapassar esta situação. Essa recepção far-se-á em dois dias, o que me leva a crer que ao segundo, já ninguém se lembra do que se disse no primeiro, apesar de todos eles, presidente incluído, estarem mais que certos do que cada um deles vai dizer.

Valha-nos a nós, contribuintes, que as viagens são curtas. Portanto, mesmo a gastar combustível nas grandes máquinas, a despesa nunca será muito grande, o que já de si revela qualquer coisa de anormal neste país. Mas, manda a tradição que haja diálogo, logo, vamos a ele que se faz tarde.

Também não me parece que as audiências se façam em separado, a menos que seja segredo de estado o que já todos sabemos que se vai dizer. Se é para evitar discussões desagradáveis, também não me parece que isso constitua problema. Talvez assim se evitassem as peixeiradas nas televisões, pois um palácio sempre impõe maior contenção aos exaltados.

Depois há outra razão para que tudo aquilo seja muito monótono porque, suponho eu, que em cima da mesa apenas estejam as tradicionais garrafas de água mineral. Sabe-se que para muitos participantes, a água faz barrocas no estômago, como diz a sabedoria popular. E para se beber outra coisa teria de haver umas tapas, ou algo semelhante, para forrar o dito.

Portanto, digo eu, todos os líderes à volta de uma mesa bem guarnecida daria um contributo substancial para a produção de conversas substanciais a condizer com a substância do ambiente. Isto não quer dizer que não houvesse uma alternativa ainda muito mais substancial, e, mesmo assim, talvez um pouco mais baratinha.

Ora é aqui que entram os caracóis. Os ilustres dialogantes podiam fazer uma viagem até à capital da Beira Baixa, num único autocarro, via A23, que ainda não está onerada com portagens, o que reduziria bastante os gastos dos contribuintes. Uma vez ali, num rápido passeio pedestre para abrir o apetite e estimular a criação de ideias, apreciavam a cidade e as suas modernas transformações.

Depois, na esplanada do Café Beirão, que até podiam mandar reservar por causa dos curiosos, abriam o diálogo com uma saúde ao sucesso da iniciativa. Depois, enquanto um deles falava, os outros iam chupando nos caracóis cheios de molho a saber a orégãos e a pedir uma geladinha, para afinar as gargantas para as intervenções seguintes.

Ele havia lá acordo que resistisse a uma discussão destas! O orçamento? Isso já era!...