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afonsonunes

afonsonunes

01 Out, 2010

Haja barulho!...

Se o silêncio paralisa, o barulho agita e movimenta, que mais não seja a língua do pessoal que ainda se considera vivo, neste mundo onde já é muito difícil saber se os que riem são mais felizes que aqueles que muito se choram.

De um modo geral, uns e outros, parecem ir ganhando o hábito de viver um silêncio, para lá de uns assomos de manifestações gestuais dos seus estados de espírito, silêncio que tem muito a ver com a convicção de que já não adianta falar muito para se perceberem mutuamente.

Mas, quando as pessoas se percebem, não significa que se entendam. E isso conduz mesmo ao silêncio, para evitar aquelas discussões que nunca mais acabam, exactamente, porque da excessiva troca de argumentos repetidos, só pode resultar a perniciosa teimosia.

Deixando para trás a conversa fiada das reflexões da ponta da língua, quero também deixar bem claro que há ocasiões em que o barulho é salvador. Mas é aquele barulho que liberta e não aquele que deprime. É aquele barulho que nos faz abrir as goelas até lá abaixo, para libertar todo o lixo que ali se acumulou ao longo dos anos.

Lixo bom ou mau, consoante seja reciclável ou tenha como destino único a queima em qualquer pira, ainda que mesmo muito pirosa. Sim, porque o lixo palavroso tem aumentado assustadoramente, muito mais que o lixo de todos os resíduos sólidos que nos ameaçam a mobilidade normal.

O país está a ficar sufocado por uma espécie de lixo verbal que se arrasta pelas ruas, pelas estradas, pelos ares, que entra em todas as casas, nas nossas casas, e nos deixa a bufar por cima, como se nos roubasse a capacidade de pensar e de falar.

Ora isso é que não pode acontecer. Não basta bufar, é preciso gritar, espirrar, refilar, incomodar, sapatear, fazer barulho. Sim, fazer muito barulho, até que consigamos abafar os ruídos que tanto nos têm deprimido ao longo de tantos anos.

A quem eventualmente pergunte porquê agora, direi que é uma boa oportunidade para aproveitar a embalagem ambiental que nos vai rodear, muito mais do que até agora, tanto mais que a aragem que vem de fora, do lado continental, terá tendência para nos empurrar para o lado do mar.

Depois, é do lado continental, que virão os gritos e o barulho dos que não se aguentaram nas suas origens e, desesperados, vão chegar até nós em turbilhão, qual exército em debandada, que só será travado pelas ondas que nos batem do Minho ao Algarve. E, nessa altura, nós já estaremos com eles, a gritar uma qualquer palavra de ordem.

Não se assustem os que não sabem nadar. Será muito mais útil saber gritar uma boa palavra de ordem, que ter capacidade para aguentar mais uns segundos de luta contra a força bruta das ondas.  

Portanto, em terra ou no mar, antes de nos afogarmos, vamos gritar, vamos fazer barulho, mas muito barulho, com toda a nossa energia, porque mais vale ter uma morte linda e animada, que uma vida feia e parada.