Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

02 Out, 2010

Não gosto de ti

Não gosto de ti mas não me passa pela cabeça ter de viver sem ti. Não posso imaginar-me a olhar para qualquer lado, da direita à esquerda, da frente à retaguarda, sem ter a certeza que estás ali, sempre presente, sempre a digerir o ódio que te manifestam, que eu te manifesto, mas que tu sabes transformar em sorrisos que confundem.

Não consigo perceber que raio de não gosto é este que me leva, que leva muita gente, a detestar-te desta maneira tão cruel mas, ao mesmo tempo, ter, ter-mos necessidade de não te tirarmos do pensamento, como se não pudéssemos contrariar aquele dito popular que garante que quanto mais me bates mais gosto de ti.

A verdade é que eu, muitos de nós, não gostamos de ti, talvez por nos bateres todos os dias com alguma coisa contundente, de nos magoares a toda a hora com as duras partidas que nos pregas, daquelas que não lembrariam ao diabo, mas que tu descarregas sobre nós, como se o teu prazer fosse gémeo do nosso sofrimento.    

Dizes que não gostas de nos fazer mal, mas fazes. Garantes que só queres o nosso bem, mas o mal que nos fazes, só revela à evidência como confundes e misturas o bem com o mal. Era bem preferível que confessasses de uma vez por todas que nos detestas, que gostas de mostrar uns estranhos ares de perversão para connosco.

Talvez assim eu, muitos de nós, acabássemos por nos convencer que seria melhor esquecermos-te de vez, passarmos a gostar de ti, mas por te ter longe da vista, sentirmos o prazer da tua ausência, o benefício da tua não influência sobre nós, pobres dependentes da tua nefasta vontade.

Palavras, tantas palavras, mas a verdade é que todas elas não chegam para traduzir uma falta enorme de coragem, traduzida na incapacidade de fazer coincidir uma vontade exterior, um ódio latente, com um sentimento interior, um amor intermitente, que acaba sempre por vencer e deixar que tudo continue na mesma.

Já tenho dito baixinho para mim mesmo, vai-te embora, não gosto de ti, quero libertar-me de ti, quero viver sem a tua sombra, mas depois, como que acordando de um pesadelo que não chega a assustar, afasto essa espécie de maldição e sinto que me fazes muita falta, que não posso, não imagino, não me passa pela cabeça, deixar de pensar em ti a todo o momento.

Mas porquê, pergunto a mim mesmo com algum desespero. Lá no fundo, bem no fundo do meu íntimo, encontro a resposta que me conforta e me alivia. Não posso deixar de te insultar, pela simples razão de que, se o não fizesse, receio bem que não encontrasse outro alvo para os meus desabafos.

Depois, receio bem que, se tentasse fazê-lo com outra personagem, não teria o prazer de ver um sorriso tão aberto e tão sincero como o teu, em resposta aos meus insultos. É por isso que, não gostando de ti, passo a vida a pensar no modo como te hei-de insultar, sem ter que te ver partir, deixando a minha vida sem sentido.

Para quem pense que isto é um negócio de saias, esclareço que está muito enganado. Por minha culpa, claro, mas não quero ter esse peso na consciência. De quem eu não gosto é dele e não dela. E, confesso que não há em mim qualquer paixoneta com desejos de beijos e abraços mas, é muito mais complicado, é um desgraçado romance político.

Repito, não gosto dele, mas não gosto mesmo, como muitos de nós, aliás, e no entanto vejo que ninguém, ou quase ninguém, o quer mandar embora, principalmente, como é óbvio, quem tem força e poder para lhe indicar a porta de saída com aquela expressão autoritária e definitiva: Saia!...  

O grande problema é que ele não quer sair e não se vê quem o queira fazer sair. Pelo contrário, toda a gente parece ter medo, vá lá, receio, que seja ele a bater mesmo com a porta. Estranha forma de vida, nesta estranha vivência democrática. E eu que não gosto nada dele. Mas deixem-no estar, está bem?...