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afonsonunes

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04 Out, 2010

Boa, Barata!...

Fiquei para morrer quando te ouvi dizer que a tua vida ia mudar como do dia para a noite, por causa dos famigerados aumentos das dificuldades provocados pelas medidas de austeridade. Não é caso para menos, pois nem posso imaginar os danos que o café que frequentas durante todo dia na companhia da tua mulher será mais uma vítima de encerramento inesperado e compulsivo. Quiçá, fraudulento para os trabalhadores.

Perder um cliente como tu, é uma perda irreparável no orçamento do café, traduzido em quatro bicas por dia, duas de manhã e duas de tarde. Provavelmente, vais contagiar uma ou outra amizade que partilhava contigo e com a tua mulher, a mesa que já estava quase em regime de concessão permanente.

É assim que estão muitos orçamentos em causa neste país que anda há muito ameaçado de não ter orçamento aprovado. Tudo porque tu, Barata, chegaste à conclusão que o teu orçamento não comporta quatro cafés por dia, mas cortas logo o mal pela raiz. Podias reduzir para dois cafés diários, mas não.

Se fizesses um corte mais moderado, o teu orçamento continuava viabilizado e o café teria também o seu orçamento equilibrado, embora a meia tigela. Assim como o país que, seguindo o teu exemplo, não perderia tanto tempo com esta novela do orçamento, porque todos os Baratas e as respectivas mulheres e amigos e amigas não deixariam de ir fazer sala para o café, poupando na luz da sala lá de casa, o que representava um corte muito significativo nas despesas correntes ou seja, na factura energética. 

Mas, mais estupefacto fiquei ainda, quando te ouvi dizer que também não poderias continuar a ir ao mercado a comprar certas coisas. Com franqueza, Barata, isso para mim é uma preocupação dos diabos. Então eu, que todos os dias te vejo carregado de sacos de plástico por aquelas bandas, posso lá acreditar que vais deixar de comer, da mesma maneira que vais deixar de tomar café?

É que não compreendo lá muito bem que significado tem, deixar de comprar certas coisas. Mas se te queres referir às coisas certas que até aqui compravas todos os dias, então tenho de dizer-te o mesmo que disse dos cafés. Corta lá um bocado, mas não cortes tudo ao mesmo tempo, senão ainda tens de gastar uma pipa de massa para te mudares para a última morada. E olha que isso não é uma despesa nada barata. Aliás, hoje em dia, barata só tu.

Oh Barata! Diz-me cá uma coisa. Quando disseste essas coisas para a televisão, em pleno café e com a mesa cheia de coisas, também havia por lá umas tacitas ou uns bagacitos que já tinham ido? Ou foi a televisão que pagou a despesa? Para quem não pode continuar a tomar café, é um tanto enigmático esse esbanjamento ocasional. Oh Barata, não estavas a brincar com a gente, pois não?

O pessoal da televisão quase tropeçou numa mulher sentada junto à porta, do lado de fora do café, com uma criança no regaço mordiscando uma pequena côdea de pão seco. Pedia ela encarecidamente ajuda para alimentar a criança. O pessoal da televisão nem olhou para ela nem para a filha, correndo ao encontro do Barata, bem instalado lá dentro.

Fez-me pena ao pensar naquela mulher e no Barata. Este parecia ir morrer de fome ao falar para a televisão. Mas nunca trocaria de lugar com a mulher que estava lá fora. Os seus entrevistadores, se queriam mostrar miséria, podiam tê-la mostrado antes de entrar no café, virando a câmara para o rosto daquela mulher sentada no chão, à espera que alguém a visse e a ouvisse. Em vão.

Boa, Barata! É assim que se ganha o céu rezando o dia todo à mesa do café.