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afonsonunes

afonsonunes

06 Out, 2010

Mas, qual é a tua?

Sinceramente, pá, cada vez te percebo menos. Vejo que gostas muito de atirar milho ao pombo mas depois não o deixas comê-lo. Tentas afugentá-lo por todos os meios, principalmente, através de uns impropérios linguísticos que até assustam os pardais que esvoaçam nas redondezas.

Tu sabes, pá, que o pombo está esfomeado e precisa, como de pão para a boca, do milho que lhe atiras em jeito de acto de misericórdia, apesar de tudo o que lhe sai do bico ter a forma de uns arrufos que, misturados com um arrastar de asa, até deixam transparecer que a coisa, o milho, até ainda não é um desespero por aí além.

Oh pá, eu percebo perfeitamente qual é a dele. Como é pombo, anda um pouco acima de ti, ou não tivesse asas para voar, normalmente, num voo relativamente rasteiro, talvez porque quem lhe atira o milho não o atira para o ar. Que é o teu caso. Lá na dele, do pombo, claro, o facto de o não deixares comer o milho no momento não quer dizer nada.

Pensa bem, pá. Tu atiras-lhe o milho e imediatamente o enxotas dali para fora. Mas, como ele é esperto, vai dar uma volta, vai observando lá de cima e vê quando é que tu desandas dali. Depois vem comer o ‘milhinho’ que tu lá deixaste. Sim, porque o pombinho sabe muito bem que, depois de espalhares o milho, nunca mais o apanhas.

Olha pá, não sei porquê, mas tenho muitas vezes a sensação de que o pombo matreiro te leva no embrulho, cada vez que tentas passar-lhe a perna. Convém não esqueceres que ele tem duas pernas como tu, mais pequenas, é certo, mas com muito mais mobilidade. Além disso, as asas dele também são muito mais eficazes que os teus braços.

Tu, pá, tens uns passos ainda um pouco hesitantes, dando a sensação de que saíste de casa ainda um tanto imaturo, principalmente, para te meteres com um pombo que toda a gente sabe que é filósofo, logo, muito sabido, apesar de todas as ignorâncias que alguns lhe querem atribuir, só porque se formou no ninho de uns cucos um tanto preguiçosos.

Como vês, pá, nem sempre as origens fazem o sucesso, como nem sempre o sucesso se alcança com milho que não se sabe que bico o vai apanhar. É muito difícil um passarinho como tu, salvo seja homem, aparentemente saído de um ninho mimado, ainda por cima com asas sem penas, competir com um passarão como é o pombo filósofo.

Depois, os teus manos da ninhada de onde saíste, pá, tal como os que puseram os ovos dessa ninhada, todos te deixaram sozinho, entregue à tua pressa de voar sem penas nos braços. Foi assim que ficaste à mercê de outros passarinhos como tu, com um ou outro passarão por perto, todos tão desejosos de se verem a voar depressa e bem, quão desejoso tu estavas e estás cada vez mais.

Lá chegará o tempo de arranjares maneira de armadilhar o pombo com o milho que lhe atiras. Para isso, pá, tens de perder esse ar de passarinho mauzão e armar em caçador implacável e certeiro que não falha um único tiro. Senão, mais tarde ou mais cedo, ainda acabas embrulhado no meio de algum bando de pardais que tudo devoram à sua volta.

E olha que pombos e pardais, cada vez há mais. Portanto, põe-te a pau, pá, porque tens muita passarada que anda um tanto à deriva, por não ver onde pousar com tranquilidade e segurança, como o fazia há uns bons anos atrás. Por isso, não pára de perguntar: Mas, qual é a tua, pá?