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afonsonunes

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Há quem goste muito do rigor que devia existir em tudo o que se faz na vida, mas parece que há ainda mais quem prefira a imprevisibilidade do venha o que vier, na esperança de que alguma coisa se aproveite. O rigor incomoda muita gente que acaba por se sentir muito mais à vontade no meio da balbúrdia e da confusão, quando não há talento para conviver dentro das normas estabelecidas.
Para se ser rigoroso tem de se agir sempre com todo o rigor, tanto em relação a si próprio, como em relação aos outros. Ora isso não é tão fácil como parece, pois quem é mais exigente, nem sempre é quem mais se preocupa com as exigências alheias.
Há pessoas que se afirmam de um rigor absoluto em todas as circunstâncias, porque não permitem a ninguém um gesto a mais nem a menos, uma palavra com mais ou menos pronúncia pessoal, ou uma vírgula mais à esquerda ou mais à direita da frase. Com elas tudo tem de ser perfeito e clarinho como água, contrariamente aos descuidos que elas próprias demonstram a todo o momento, quando dos outros se trata.
Certas pessoas, sob pretexto de serem muito rigorosas, acabam por demonstrar que são muito miudinhas nos seus procedimentos e nas suas ideias. Em tudo vêem problemas graves que podem degenerar em tragédias quando, na realidade, apenas sentem o seu ego ameaçado por alguma vírgula que pode, por acaso, ou por imponderáveis do destino, transformar-se em abominável ponto final, que altere completamente o sentido das suas espectativas futuras.
Pessoas miudinhas é o que não falta por aí, mas há umas que incomodam mais que outras, dependendo muito do estatuto que detêm na sociedade ou nos lugares públicos em que se posicionam. Depois, vem o conceito que delas se faz, nem sempre despido de interesses e simpatias que adulteram os juízos que vêm a público, apregoando uma espécie de rigor saudável em determinadas decisões, onde apenas existe uma doentia minúcia do pormenor e da desconfiança injustificada.
Muitas vezes acaba por se considerar uma atitude miudinha, como rigorosa, só porque o feitio de quem a toma é assim mesmo. Outras vezes, considera-se que outra pessoa é miudinha quando, em boa verdade, toma decisões de rigor, em obediência aos princípios que defende. Agora, já não importa o feitio, antes se acrescentando uns tantos adjectivos em seu desfavor.
Há, portanto, alguma diferença entre o rigor incompreendido dos teimosos e o rigor dos miudinhos, tantas vezes perigosamente sublimado.