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afonsonunes

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17 Out, 2010

Os tesos e a tesura

 Ninguém escapa a esta espécie de cura colectiva que, por decreto, toda a gente fica obrigada a cumprir por, reconhecidamente, nos encontrarmos no centro de uma pandemia que dá pelo nome de tesura. Para quem não conhece o termo, convém esclarecer que é o estado em que cada teso português se encontra neste momento.

Isto, se considerarmos que todos os haveres que tem, quem julga que não está teso, tem-nos empenhados, vulgo, no prego dos bancos pois, mesmo os que julgam que têm muito agora, talvez fiquem com saldo negativo depois do acerto de contas que se vai fazer de aqui em diante, já, ou mais logo, dependendo da chegada do cobrador coercivo.

Nem quero pensar que haja quem julgue que ser teso neste momento, é ser, como hei-de dizer, é ser forte, rijo, duro, viril, em tudo o que diz e faz. Mais vale pensar que todos os tesos vão fazer das tripas a sua carteira e puxar do pouco ou muito que lá tiverem e sacá-lo para a mão de quem não admite recusas nem adiamentos.

E, contrariamente ao que se dizia ainda há poucos dias, verberando exactamente o facto de apenas os tesos, visivelmente tesos, serem atacados pela virose altamente corrosiva das carteiras vazias, agora já se diz que ninguém escapa à malina, daí que se tenha transformado numa espécie de pandemia nacional da tesura.

De qualquer forma, grande ou pequena, já há uma evolução positiva no meio de tanta contradição que eu entendo sem qualquer esforço. Se já ninguém escapa, como vi escrito em qualquer lado, a febre de alguns deve começar a baixar, já que o seu principal problema estará resolvido, ou em vias de resolução. Já não são só eles a pagar.

Ao partirmos todos de uma situação de tesura, mesmo considerando que há tesos mais tesos que outros, será mais fácil ultrapassar de vez essa pandemia nacional dos tesos, uma vez que não há o perigo dos complicados contágios e transmissões de vírus, pois contaminados já nós estamos todos. Daí que, do mal o menor, vamos todos a caminho da cura ao mesmo tempo.

Para os mais pessimistas, normalmente os de menor tesura, esta é uma pandemia injusta e até inadmissível, pois será a primeira vez que neste país de maus hábitos, se põem os tesos visíveis em igualdade de circunstâncias com os tesos invisíveis, chegando a este descalabro de se declarar à boca cheia que desta vez ninguém escapa.

 Os tesos mais tesos, por sua vez, dizem que esta conversa do ninguém escapa é uma ova, pois os pretensamente apanhados em tesura ligeira, sempre escaparam a tudo e não é agora que alguém do seu nível de tesura vai deixar de lhes arranjar uma escapatória para que eles, mais tarde ou mais cedo, se escapem mesmo.

Tudo leva a crer que, como na natureza, das cinzas nasce a vida, e deste país cronicamente doente e desde há muito tempo em serviços paliativos, haja a esperança e até a convicção de que o milagre da vida ainda possa salvar muita gente, de entre aqueles que querem mesmo ser salvos, porque dos outros, como dizem os crentes, que Deus os ajude e acompanhe. 

Pode ser que dessa cura milagrosa de redenção, resulte a abolição definitiva da tesura congénita nacional que, não sendo real nem geral, anda no ar como se já não houvesse ninguém que não sofresse dela. 

Vale-nos o facto de ainda haver tesos, não da carteira, mas na vontade de vencer a doentia tesura que é propalada a toda a hora por quem nunca a sentiu nem nunca soube o que isso é. 

 

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