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afonsonunes

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18 Out, 2010

Ora adeus, prima

A minha prima Laurinda diz que não está muito preocupada com as medidas de austeridade, nem com nenhum dos peques que o governo já deu à luz. Acredita até que a coisa não fique por aqui. E de dedo indicador a ameaçar não sei quem, lá vai dizendo que é muito bem-feita para ver se certos meninos e meninas aprendem a viver com o que têm.

A Laurindinha não é nova nem é velha, mas tem cá umas niquices que parece que é as duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, parece ser um pouco bota-de-elástico, achando que toda a gente devia evitar entrar nos bancos. Por outro lado, tem um pendor para os vícios de certas camadas jovens, preferindo frequentar tascas muito modestas, em lugar de bares chiques.

Segundo me explicou com todos os pormenores, os bancos do largo da tasca, só servem para a gente se sentar a partir da uma da madrugada. Porque cada banco dá para mais de dez se sentarem ao memo tempo. Depois vão-se revezando, até porque há sempre alguns de pé, enquanto vão à tasca buscar as garrafas de litro e meio de cola.

Realmente, quem sabe fazer contas, sabe muito bem quanto custa beber uma cola no banco do bar, ou no banco do largo onde fica a tasca. É como ela diz. Viver não custa. É preciso saber viver. Essa gente que não sai do banco do bar, claro que se queixa que o dinheiro não dá para tudo. Depois queixa-se que tem de ir muitas vezes ao multibanco.

O pior, diz a minha priminha, é que o cartão também acaba por dar negas, pois o outro banco, o que põe o pilim no multibanco, diz que isso de tirar, tirar, sem nada lá pôr, foi tempo que já deu o que tinha dar. Se calhar, diz ela, é disso que tanta gente se queixa. Depois dizem que são as medidas. Mas quais medidas? Pergunta ela, arregalando os olhos.

Sobre medidas, a única coisa que ela sabe é que uma garrafa de litro e meio de cola, comprada na tasca, leva uma infinidade de copos e custa muito menos que um copo de três, também de cola, bebido num bar dos mais baratinhos. Até já desconfiou que há bares que vão à tasca comprar garrafas de litro e meio para depois venderem ao copo. Não, aqui não acredito.

Depois, a minha prima Laurinda voltou-se para outro assunto. Diz-me que nunca comeu aquele pão sem côdea, embalado em saquinhos de plástico, porque custa um dinheirão. Aliás, diz ela, se me apetecer só miolo de pão, pego numa faca e tiro a côdea, da qual faço depois uma açorda de qualquer coisa. De que coisa, perguntei curioso. Olha, por exemplo, de espinhas de bacalhau, que dão um gostinho bestial à açorda.

Nem perguntei pelo bacalhau. Certamente que não o deitou fora, de certeza absoluta, pois sei muito bem que espécie de prima tenho. Quando muito, era bem capaz de o deitar para o pratinho do gato, de que ela gosta muito, e o qual não gosta nada de espinhas.

A propósito de austeridade e do gato da minha prima, também ela já me disse que foi o próprio bichano que renunciou aos caros enlatados, garantindo que ia dedicar-se a caçar ratos, pois os tempos não estão para muita lata. Disse que ficou um tanto surpreendida com o sentido de responsabilidade do animal, muito superior ao de certa gente.

A minha prima Laurindinha disse que era capaz de estar um dia inteiro a dar-me exemplos de como ela não tem problemas com a austeridade. Chegou mesmo a garantir-me que já tratava a austeridade por tu, desde que se conhecia. E, imagine-se, acrescentou que a austeridade nunca lhe deu dor de estômago, nem de barriga, nem lhe criou calos nos pés, por causa das sandálias baratinhas.

Mais. Prontificou-se a ensinar toda a gente que queira seguir-lhe o exemplo, a saber viver sem deixar que o cartão do banco secasse por excesso de utilização. De repente, olhou para os meus ténis e verberou: Oh primo, não sabia que também eras desses. Ora vê se tomas juízo. Fazes-me lembrar esses pobres que as televisões mostram a trocar bifes do lombo por sopa.

Depois de a deixar a resmungar, meti as mãos na consciência e lembrei-me que eu e muitos mais, pensamos pouco naqueles que, com austeridade ou sem ela, sempre viveram do mesmo modo que vão continuar a viver, apesar de ninguém lhes tirar nada. De onde não há nada, nada se pode tirar. Esta, nem a minha priminha sabia.