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afonsonunes

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19 Out, 2010

A caça à multa

Volta não volta, lá volta a velha acusação de que há uma perseguição implacável a quem transgride a lei, como se isso fosse uma daquelas coisas que desprestigia qualquer governo e qualquer país. É evidente que, seguindo esta linha de pensamento, os transgressores são os agentes que aplicam as multas e, pior que eles, são os governantes que tal permitem e incitam à sua prática.

Isto reflecte bem o tipo de jornalismo que julga vender bem este subproduto informativo e o tipo de empresários que, nesse meio, dominam e condicionam, não só os conteúdos, mas também, por via indirecta, a liberdade e qualidade daquilo que publicam. Estão mais preocupados com o medo que outros interfiram nos seus defeitos, do que em corrigir esses mesmos defeitos.

Por mais que os patronos dos infractores se indignem com aquilo a que chamam de caça ou excesso de zelo, ou ainda obsessão e perseguição, a verdade é que, não raras vezes essas coisas todas até funcionam em sua defesa, sendo os casos mais evidentes, as multas de trânsito e as do ramo alimentar. Em qualquer deles, joga-se muito com a vida e com a morte.

Mas há quem goste das coisas assim, para poder atirar-se ao governo, aos governos, em lugar de se atirarem a estes, pelos muitos motivos em que o podiam fazer com toda a razão. Só que, nesse caso, muitas vezes, não lhes interessa, porque consideram que tal seria estarem a dar uns tirinhos nos próprios pés.

Para qualquer sector da sociedade para onde nos voltemos, deparamos com abusos e ilegalidades por todo o lado, muitos deles e delas, grandes responsáveis pelo estado caótico e de penúria em que nos encontramos e que, pelos vistos, não preocupa ninguém pois, mais uma vez, porque isso seria meter chumbo nos pedantes dos caladinhos.

Daí que não tenha dúvidas em afirmar que o país precisava de todos os caçadores da Península Ibérica mobilizados para dar caça a todos aqueles que nunca são incomodados pelos, muitas vezes acomodados, caçadores de multas nacionais. Ou muito me engano, ou esses caça multas farão mais o papel de protectores das espécies que deviam caçar. Até já se têm detectado apetecíveis incentivos para o efeito.

Concluo que, além dos que são anti-caça às multas por falta de pontaria, verdadeiros maus profissionais, há os que se declaram anti-legalidade, uma espécie de pró sabotadores da economia nacional e responsáveis pelo assalto ao bolso dos contribuintes de que os mesmos tanto se queixam. As multas não são um crime nem uma actividade cinegética qualquer.

Como gosto muito de opinar, sou de parecer que nesta caça não devia haver defeso, nem é de bom-tom aparecerem os caçados, armados em coitadinhos, porque foram apanhados numa cilada, armada por agentes ou poderes estranhos. Mal estaremos todos, se a caça à multa se transformar, ainda mais, no sentido de uma competição destinada a coleccionar papelinhos dados por agentes generosos e, se possível, muito divertidos.

Porque ninguém duvida de que este país é uma coutada onde só se caça qualquer coisa nos dias programados, dando demasiada margem de manobra a que as espécies infractoras se reproduzam para lá do defeso interminável. Sendo muito mais favoráveis as condições de que beneficiam as espécies cinegéticas da coutada, do que as dos caçadores acabam, eles sim, por ficar em vias de inactividade, senão mesmo em vias de extinção.

Parece-me que já não adianta muito falar de caça à multa. É preciso abatê-la mesmo, mas só depois de uma verdadeira e ruidosa batida em que a coutada fique limpa de vez, ainda que seja preciso usar matilhas, tambores, cornetas e tubas para que nada fique escondido.

No final, que se faça o banquete da praxe, com exibição dos troféus caçados.