Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

20 Out, 2010

Aí está o circo

Ainda nem é Natal e muito menos é Páscoa, mas o circo já está montado e tudo indica que vai ficar por cá durante muito tempo. Até porque as borlas vão durar até lá para Maio, altura em que o mestre-de-cerimónias do espectáculo pode respirar fundo e espirrar com toda a força que tiver disponível no momento.

Entretanto, já podemos apreciar algumas das feras que vão fazer sucesso, enquanto os palhaços, já meio aperaltados, com os narizes muito redondinhos e coloridos, já arriscam umas piadinhas para manter intacta a expectativa dos curiosos mais ingénuos, isto é, dos que ainda acreditam na validade das falsas palhaçadas.

Neste momento, precisamente, estão os palhaços pobres a mostrar umas gracinhas sobre chumbos de pressão de ar que, dizem eles em coro, servem para criar alento e confiança nos medrosos. Logo de seguida aparece o palhaço rico, todo engalanado com plumas de cores quentes, e lança a confusão nos seus colegas da ralé.

Esse chumbo, esclarece ele, está sabotado, pois aqui só eu estou autorizado a usar chumbo verdadeiro, daquele que realmente chumba sem apelo nem agravo. Os palhaços pobres amuaram e juraram nunca mais armarem em espertos, enquanto houver um palhaço rico no circo. E foi assim que se foi a política do chumbo da pressão de ar.

Mas, o circo não pára, malgrado o amuo dos palhaços pobres e as partidas do palhaço rico, que depressa são todos esquecidos porque entram as feras naquela arena onde pode muito bem haver carnificina se o domador mostrar alguma fraqueza na varinha que agita permanentemente no ar.

Há passos, muitos passos, passos nervosos, passos indecisos, passos de recuo, passos para os lados, até que surja aquela ideia luminosa que ofusque todas as ideias chochas que saíram de outros passos perdidos no meio da frescura do espectáculo que mais parecia um simples ensaio que nem sequer foi geral.

Mas, voltemos às feras que já estão a ficar inquietas com toda esta cantiga do chumba não chumba e das birras dos palhaços pobres que defendem a classe média e deixam ao palhaço rico a difícil missão de não deixar que o chumbo chegue às feras indomáveis da classe dele, senão lá se vai também o seu estatuto de inofensivo indomável.

As jaulas das feras já estão abertas e vazias com a arena a abarrotar de dentuças cortantes e arreganhadas para assustar a assistência, pois sem medo e sem ameaças de dentada, não haverá prémio do domador para aquela montra ruidosa de uma selva sem árvores nem buracos que sirvam de esconderijo, tanto às feras, como às suas vítimas.

Na eminência de se verem na necessidade de se devorarem umas às outras na própria arena, as feras excitam-se com a constatação de olhares recíprocos cada vez mais ferozes e a indecisão do domador em criar condições de estabilidade emocional em todo o espaço circense, já que os pagantes do espectáculo, também já perceberam tudo.

Sinceramente, já não sei de quem é a culpa de toda esta instabilidade no circo e fora dele. A assistência paga bilhete mas já não bate palmas. As feras rugem mas ignoram o domador que, nervosamente, já demonstra cada vez mais medo das feras. Os tratadores, coitados, sem carne para as feras, temem vir a ser engolidos vivos.

Mas, os palhaços, ah os palhaços, continuam a pensar que o circo está cada vez mais engraçado porque, para eles, tudo o que dizem e fazem tem imensa graça. Ainda não repararam nas feras famintas que andam por ali.