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afonsonunes

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22 Out, 2010

Conversas medidas

Finalmente!... Esta palavra, tal como o ponto de exclamação e as reticências, nunca se revestiram de tanta importância para o país, quanta aquela que somos obrigados a reconhecer-lhes agora, concretamente neste dia e neste momento. Simplesmente, porque surgiu a luzinha ao fundo do poço, situado no interior e mesmo no fim do túnel.

Pois, finalmente, vai haver aquelas conversas que toda a gente estava à espera que viessem a acontecer, há muito tempo para que, ao que dizem, não caíssemos no fundo escuro do poço, onde já estaremos agora, segundo cálculos alternativos a outros cálculos, quais deles os mais mal calculados. É por isso que as conversas que aí vêm, têm de ser muito bem medidas.

E para serem bem medidas é indispensável que alguém de confiança de um lado, o fundo do poço, tire as medidas ao outro lado, o fundo escuro do túnel, para que possam começar as operações de salvamento. Que consistirão em lançar cordas a ligar os dois lados dos desesperados sinistrados.

O projecto foi feito para que, numa primeira fase, o lado que está no túnel, vá içando um a um, os sinistrados do lado que está no fundo do poço. Se tudo correr bem, vão juntar-se os dois lados cá em cima, no fundo escuro do túnel, situação que está longe de ser um salvamento que possa considerar-se um sucesso e definitivo.

Porque, há quem receie que aqueles que estão no fundo do poço puxem pelas cordas para baixo, em lugar de se deixarem içar, provocando a queda no fundo poço, dos que estavam na entrada do túnel, prontos a fazer força para cima. É uma teoria com fundamentos de suicídio colectivo, com tendências extensivas. Isto porque os do fundo do poço já se consideram mortos logo, que morram os outros também.

Uns e outros andaram tempos infindos a tirar medidas de um lado e a pôr medidas do outro, para ver se uns conseguiam enterrar os outros com as medidas bem tiradas. Afinal, parece que, reconhecem agora, é melhor conversarem antes de serem todos enterrados vivos. Entretanto, enterrados estão por agora os receios suicidários.  

É por isso que o tal – Finalmente!... – foi, para muita gente, o fim de um pesadelo, a salvação do país, o fim da parvoíce, ou a revelação das medidas mal tiradas. A excitação de hoje, se não é prenúncio de salvamento, representa um sinal de que as cordas entre o fundo do poço escuro e o túnel às escuras começaram a movimentar-se, ainda que experimentalmente.  

Mas, as cordas são muito traiçoeiras e podem partir-se facilmente, se nas extremidades houver quem as puxe em sentidos contrários, dependendo da intensidade das forças utilizadas pelos dois lados. E esse tem sido o pão nosso de cada dia. Que cada vez é menos pão e mais conversa, que cada vez é menos nosso e mais deles.

Andam medidas no ar aos milhares, de tal forma que já sentimos que elas servem para nos oferecerem um fatinho à medida deles, com as canelas à mostra e um casaquinho do tipo de toureiro em acção, muito curto, tão curtinho, que vamos ficar com o umbigo de fora como as meninas que o têm belo.

Todas as medidas já tiradas e a tirar, vêm na sequência das exigências da moda. Garantem que o tempo dos fatos largos e compridos já lá vai e não volta mais. Agora é tempo de tudo apertadinho, muito justinho, com clara discriminação positiva para quem for muito magrinho, com medidas muito abaixo da média.

Os do poço e do túnel vão acabar com as cordas enroladas ao pescoço, enquanto nós, os dos fatinhos, vamos ficar mesmo fresquinhos este inverno. Que bem nos tiraram as medidas.

 

 

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