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afonsonunes

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23 Out, 2010

Miminhos

Aposto que não há ninguém que não goste de receber uns miminhos, nem que seja na careca lisa, ou nos farfalhudos cabelos compridos, para falar apenas no que se passa acima do pescoço. Miminhos são miminhos, de novos e novas, de maduros e maduras, são trocas que, entre todas as idades, podem ser as delícias que fazem gente feliz.

Contudo, há um segmento da sociedade, onde os miminhos são particularmente necessários e onde, verdadeiramente, mais se notam e se apreciam. Refiro-me ao mundo da política onde, mesmo sem formação específica, todos encaixaram aqueles gestos típicos de miminhos que, ao pressenti-los, com muita inveja o confesso, me fazem cócegas em toda a pele.

A linguagem política, então, é um autêntico linguarejar de anjinhos doces e puros, onde a delicadeza, a subtileza e a inocência se cruzam em cada palavra, em cada frase, tornando qualquer diálogo, num compromisso antecipado, sobre os mais difíceis, complicados e polémicos dossiers da vida nacional.

Tudo porque cada palavra é um miminho, cada gesto um mimo mais crescidinho, que toca as campainhas do entendimento e repele os mais leves sintomas de discórdia, ou assomos de um tom de voz mais susceptível de provocar comichão nos tímpanos. Quem tiver dúvidas sobre esta grata realidade, é porque não consegue seguir-lhes o exemplo.

Não há nada mais elucidativo que ouvir um político dizer para o seu interlocutor: ‘Você é um indivíduo politicamente desavergonhado’. Chamo a atenção para a suavidade desta frase, gramaticalmente perfeita, onde se alia a proximidade pessoal do você, com o sentido de humanidade do indivíduo, aliada ainda à modéstia de um desavergonhado.

Depois, está lá o politicamente, o qual define e localiza o cenário, que leva o interlocutor a ser ainda mais sensível, se possível mais delicado, ao responder: ‘ Gente como você é a desgraça do meu país’. Repare-se como há nesta frase o reconhecimento de que o interlocutor é gente, o que só por si, já representa uma incomensurável grandeza de alma.

Porém, numa análise mais profunda, ou aprofundada, se alguém preferir, reforça-se a intimidade com a repetição do você. A desgraça é um complemento de companheirismo perfeito na conjuntura actual. Nestas circunstâncias de diálogo de anjinhos, nada é dito por acaso. Veja-se o país, que está ali, na frase, a representar a força da união entre eles.

Não resisto a uma outra quase citação, que me deixa feliz, porque há políticos e políticas (mulheres que fazem política) que têm um sentido extraordinário de como dar uns miminhos a si próprios e aos outros, ao mesmo tempo, quando as circunstâncias da vida os colocam, ou colocaram, como co-autores dos bons feitos que não esqueceremos nunca.

‘Quem fez esta coisa, há muito que devia estar preso. Quem fez isto é um criminoso’. Ninguém é capaz de retirar a grandeza de alma a esta frase e à sua autora. Ninguém é capaz de negar que isto é verdade, que é um miminho carinhoso para quem fez isto, e para quem fez isto mesmo, há anos atrás. Ninguém vai duvidar de que, todos mereciam uma boa prisão, mesmo dourada, para que pudessem ter todos os miminhos do mundo. As prisões é que são poucas, para tanta gente a merecer tantos miminhos.      

No mesmo contexto se poderiam citar outras frases, porventura outras palavras, sempre expressivas e reveladoras de uns miminhos que ninguém desdenharia receber, desde que imbuído daquele saber ser, daquele saber estar, na política, claro, porque fora dela, tudo é bem diferente.

Por exemplo, na rádio e na televisão, é frequente ouvirmos frases cortadas por apitos. Sem fazer ideia do que está debaixo desse apito, gostava de ouvir. Só para confirmar que não são frases de políticos, mas sim de aprendizes de político. É por isso que não concordo com os apitos, simplesmente, porque um apito não é um mimo, quanto mais um miminho.

O mesmo se passa em tudo quanto é escrita, com os pontos repetidos, os traços, as estrelinhas e outros símbolos que, cá na minha, não passam de uma imitação dos mimos e dos miminhos que os seus autores gostavam de oferecer a alguém.

Se os oferecem de boa vontade, vá lá, não os ofereçam truncados. Se estão apenas a querer oferecer um simulacro de miminhos, sugiro que, generosamente, os ofereçam a si próprios, pois não duvido de que bem os merecem.