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afonsonunes

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Ah pois, isto vai começar a aquecer não tarda nada. O bife do lombo vai sair definitivamente da classe média para a classe alta e, mesmo esta, vai ver o tamanho desse bife reduzido, embora apenas numas escassas gramas. É verdade que essa redução não chegará para abater essas gramas na barriga, porque elas serão compensadas com as mesmas gramas a mais de sobremesa.

Restará à sacrificada classe média o bitoque de carne de vaca de segunda, ou o bitoque de carne de porco que, entretanto, sairá definitivamente da mesa dos pobres, mesmo daqueles que o são um pouco a fingir. Como nestas classes há poucas possibilidades de manterem a sobremesa, é natural que as barrigas encolham um pouco.

Prevejo que todas as classes sofram uma profunda remodelação, consequência destas alterações alimentares que, por sua vez, vão ter efeitos devastadores, por exemplo, no calçado e no vestuário. Quando o estômago não enche, a barriga diminui e, com ela, os pés, a cara, e outras coisas de que me não lembro agora.    

Está bem de ver que quem calçava quarenta e três, biqueira larga, vai descer para o tamanho quarenta, com biqueira estreita. Lá vai o conteúdo de toda a sapateira para o lixo que, assim, terá de ser renovado. Muito provavelmente com sapatinhos de pano e piso de corda, que até são capazes de proporcionar um andar ligeiríssimo.

O mesmo se passa com o vestuário. Certamente que ninguém gostará de se ver a flutuar dentro das roupas e fatos dos tempos das bifalhadas e das caldeiradas de mais peixe que batatas. Portanto, há que deitar tudo fora, juntamente com a sapatada toda. Lá terá que se ir para umas coisinhas baratinhas ou até para uns fatinhos de treino com publicidade, que sempre dão para todas as eventualidades.

Como toda esta revolução precisa de dinheiro, coisa que não há, e cuja falta determinou esta triste e complicada situação, anda no ar a criação de um movimento reivindicativo que exija, não se sabe a quem, que não esteja teso, os fundos necessários à ultrapassagem deste transe que ameaça deixar tudo a nu.

Até aqui era o estado que dava tudo de graça a toda a gente. A partir de agora somos nós que temos de dar tudo ao estado, para que ele próprio se aguente nas canetas, ainda que como pobre a fazer vida de rico. Obviamente que, com tudo isto, os pobres vão deixar de ter orgulho no seu estado, quando pensam no seu colega estado.

A classe média alta passa a ser a classe média, média, enquanto esta baixa mesmo para a classe média baixa. Aquela que já era baixa antes, passa também para colega do estado, ou seja, a classe pobre a fazer vida de rico. Tudo porque sempre houve gente pobre que nunca soube ser pobre. Sempre com a mania das grandezas, tal como o colega estado.

Com todas estas divagações mais que pobres, já havia esquecido o meu bitoque de porco, com poucas batatas fritas, mas mais que a carne, onde noto que falta o ovo a cavalo e, arroz, nem vê-lo. Pergunto a mim próprio porque razão terá que ser assim, se eu nunca fiquei a dever nada do que comi ao restaurante.

A empregada de mesa, reparando na minha cara de fome, e adivinhando o meu pensamento, aproximou a cara dela do meu ouvido e murmurou em surdina, que era para compensar aquilo que muitos comilões comeram durante vidas inteiras sem pagar um chavo.

Fiquei de boca aberta, levando outros clientes a pensar que eu implorava mais um bitoque.