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afonsonunes

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26 Out, 2010

Um país parado

Suponho que já toda a gente sabe da novidade desde que ela foi anunciada com aquela pontinha de orgulho pelo informador superior das grandes instâncias, deformador das pequenas notícias, inventor de pecados cor-de-rosa e defensor de tudo e de todos que cheirem a citrinos, preponderantemente de tons alaranjados.  

Aquela novidade nada traz de novo à supostamente porca da vida portuguesa, se atendermos a que, não é substituindo a permanente cara de pau, por uma cara que passou agora a sorrir nas cerimónias que foram feitas, também agora, exactamente para isso. Quando uma cara de pau se muda contra natura para melhor, algo está para acontecer.

E o que vai acontecer hoje, já toda a gente sabe. E também é sabido que o país vai parar lá mais para a tardinha, às horas habituais da cega-rega das notícias e um pouco depois do tempo regulamentar para os tempos de antena. Portanto, daqui faço o meu apelo mais que veemente, a que ninguém esteja distraído por essa altura histórica.

Que ninguém pense que vai ouvir um daqueles discursos para adormecer no sofá, como aperitivo a uma noite repleta de sossego e sonhos a condizer. Tanto quanto posso garantir, vai ouvir-se uma daquelas novidades que nem o informador superior conseguiu antecipar no domingo à noite. Esta novidade foi bem guardada.

E, sobretudo, foi muito bem preparada ao longo de semanas a fio, com muito alarido, com muita comédia, com dramas de faca e alguidar, como se o mundo fosse ruir sobre as nossas cabeças. Bom, que ele vai ruir, vai, mas não é por causa disso. Claro que este mundo é o nosso mundo, é um mundo onde hoje à noitinha vai ser Natal.

Sim, porque Natal é quando o homem quiser e quando o informador superior o anunciar, mesmo à socapa, como se fosse a estrelinha do oriente. E, como sempre, no Natal tem de haver as tradicionais prendas. É isso mesmo, logo mais à tardinha, as prendinhas vão sair de um discurso sem sorrisos.

Esses, os sorrisos, ficam para depois do discurso, nos momentos felizes dos abraços, das felicitações, dos sucessos anunciados, dos recados enviados, das qualidades realçadas e da garantia de que todos nós o conhecemos bem. É verdade, quem disser que o não conhece muito bem, mente. Nesta história, os eternos desconhecidos somos e seremos sempre nós.

Aparentemente muitos portugueses vão respirar fundo, convencidos de que haverá algum alívio na porca da nossa vida mas, pelo que diz o meu borda-d’água, sempre muito atento aos atentados que se preparam à nossa volta, nem a porca nem a vida, se vão limpar da chafurdice em que têm andado metidas.   

Mas vou gostar de ouvir. Não há nada pior que a gente virar as costas a quem tanto se esforça por nos amparar nos momentos difíceis. Poderemos até estar a ser ingratos ou mal agradecidos, por não estarmos numa situação muito pior, não fossem os tais esforços dos nossos amigos salvadores.

Cá por mim, que sou um ser privilegiado pelos astros, só sei que amanhã já não haverá nenhuma ronda negocial, a sério, a desviar as nossas atenções daquilo que é realmente importante para nós. E o mais importante de tudo, não é a fome, não é vontade de comer, não é quem corta mais, ou quem menos cede.

Realmente, o mais importante de tudo é a sede com que todos querem atirar-se ao pote. É uma sede mais que vista, mas sempre com os sequiosos a disputar o pote da mesma maneira. Sempre com o risco de o partirem e ficaram todos com a sede sempre a crescer. Mesmo secos haverá sempre água a crescer-lhes na boca.

Apesar do champanhe que vai correr abundantemente lá para a noitinha, em todo o país, os sequiosos não vão matar a sede. Nunca mais. Mesmo com o país parado.