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afonsonunes

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Sem qualquer espécie de dúvida sou quem melhor conhece o que diz, porque mais ninguém diz o que eu conheço perfeitamente. Já disse tanta coisa que era inevitável acontecer isso, a menos que eu tivesse memória de galinha e alguém passasse a vida a decorar as minhas palavras e as minhas frases.

Espero que ninguém diga que estou a revelar muita presunção, apesar de concordar que, dela e água benta, cada um toma a que quer. Não tenho qualquer problema em aceitar que sou presunçoso, porque gosto de ser diferente dos outros. Quer isso dizer que não conheço ninguém tão presunçoso como eu.

Ora, assim sendo, não tenho mais que orgulhar-me de quem sou e do que sou, que é, nem mais nem menos, que o melhor dos portugueses a conhecer muito bem, direi mesmo, perfeitamente, o meu país, bem como todos aqueles que me conhecem muito bem, lá está, perfeitamente também.

Já que ninguém me pergunta porque sou assim tão conhecido, eu respondo, melhor, informo quem não quer saber nada, que há muitos anos ando a ensinar como se fala bem, mesmo correctamente, sobre tudo, mas mesmo tudo, aquilo que só eu posso ensinar aos meus queridos amigos, que são todos os portugueses sem excepção.

Confesso que tenho uma grande ambição, um pouco frustrada é certo, já que durante cinco anos não consegui realizá-la completamente. Os portugueses conhecem-na na perfeição. Durante todo esse tempo, tentei ser árbitro, um árbitro neutro, com apito sibilino e transparente, de preferência, de vidro sem qualquer coloração.  

Essa pequena frustração tem uma explicação que, de certo modo, a minora um bocado. Tive o azar de andarem por aí uns silvos desagradáveis, que poluíram a minha vontade e desfocaram um bocadinho a minha imagem que, como todos sabem, é pura e cristalina. Tanto se falou de apitos de ouro e de apitos iniciais, que até houve que dissesse que eu nunca poderia ser um bom árbitro.

Ah, mas aqui e agora, eu garanto que desta vez é que vou ser mesmo um árbitro a sério. Sim, porque já não é sem tempo das nossas ligas todas ficarem definitivamente ligadas à minha seriedade e ao meu fôlego excepcional para fazer soar o apito como deve ser. Esta coisa de se dizer que apito sempre contra os vermelhos, também vai acabar, porque já descobri que o vermelho pode ser muito atenuado, misturando-lhe um pouco de amarelo.

É exactamente por aí que eu vou de agora em diante. É fácil verificar como fica uma cor suave, relaxante, desde que o amarelo não abafe o vermelho, senão logo se veria que cheirava a cor de vil metal, a dinheiro novinho em folha, que é realmente tentador, mas comigo, não. Comigo é tudo transparente e, que eu saiba, o vil metal não é transparente.

E tanto que não é, que resolvi colocar metade do que tenho, no futuro. Ouvi dizer que hoje se deve enviar dinheiro para o futuro, assim como o craque conhecido por ser o maior investidor real. Ora ninguém está em melhores condições que eu para saber como se faz essa maravilha dos penosos tempos que atravessam alguns.

Sim, porque quem não sabe é como quem não vê. Mas eu sei e vejo perfeitamente. Tanto assim é que estou permanentemente a enviar mensagens aos que não sabem nem vêem e só Deus sabe o que teria acontecido se essas mensagens não chegassem ao destino. Como se vê, as minhas palavras-chave são - futuro e destino.

Depois desta minha exortação às inegáveis qualidades que possuo, vou voltar à minha habitual gestão de silêncios. Aliás, as citadas qualidade, são apenas umas tantas das muitas mais que não referi, para não parecer uma descarada campanha pessoal de alguém que parece inchado de presunção.

Não, essa, não! Inchado é que eu não estou. Sou magrinho, escorreito, saudável e sei muito bem o que sou e o que digo. Se não soubesse, estou em condições de garantir que estava meio caladinho. Sim, porque eu também só digo metade do que devia.