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afonsonunes

afonsonunes

29 Out, 2010

As corjas

 

A corja que anda metida na política passa a vida a inventar coisas para sacudir a água do seu capote, como se tudo o que está mal neste reino da bagunça se devesse apenas àquele, ou àqueles, que cada um detesta. Por muito que este, ou estes, tenham a sua cota parte de responsabilidade. Maior ou menor daquela que àqueles cabe, ou coube.

Não há português que não se sinta habilitado a fazer um diagnóstico perfeito do estado da nação e dos méritos e deméritos de todos os seus ‘conhecidos’, sejam eles amados ou odiados. Diagnóstico que muitas vezes não passa de um chorrilho de faltas de muita coisa, mas em cada um dos seus autores.

Pois o meu detector de mentiras, que tem a sua antena principal situada na ponta do meu dedo mindinho esquerdo, não me deixa dúvidas de que a coisa fia muito mais fino, que essa treta de que, ao longo de cada período de quatro anos, há um ‘gatuno de estado’ que tudo leva e que tudo desbarata.

Esse gatuno é tido como o comandante da corja que lixa o pagode e, apesar de substituído de quatro em quatro anos, a corja não deixa de existir, o pagode não deixa de ser lixado e o estado não deixa de ser cada vez mais roubado. Isto não é sina nem é fado. Isto é estupidez natural e, o pior de tudo, é ela ser geral.

Pois bem. Vamos lá ao encontro de mais uma corja, e que corja. A corja do futebol, que tudo mina, até a integridade da nação, ao dividir o país em mouros e cristãos. Se olharmos, mesmo de esguelha, para esta corja que tudo manobra, desde a criminalidade mais sub-reptícia e violenta, até às instâncias mais elevadas dos poderes do estado, vemos sem esforço, grandes e gradas figuras vivendo a coberto do seu apregoado prestígio.

Tenho a certeza de que já não há quem não esbugalhe os olhos ao ver o que se passa na justiça, através de acções que só podem ser atribuídas a corjas individuais, ou organizadas, que fazem dela, da justiça, a vergonha das vergonhas nacionais, com influência na própria governação e nos comportamentos de outras corjas que gravitam ao seu redor. Ai de algum governo que se meta com ela.

Bastaria passar uma rápida vista de olhos pelos jornais para descobrir outra das corjas mais poderosas, dada a sua influência a todos os níveis da vida nacional. Os seus furos, tantas vezes furados, revelam uma subserviência aos poderes que os comandam, quando tanto falam em pressões a que dizem não ceder.

Claro que não cedem àqueles poderes que lhes interessa manter como fantasmas para encobrirem os poderes que os sustentam e lhes dão o poder da palavra. A maneira como sustentam casos até à rotura da paciência de quem os lê, é um atentado à maneira como vão abafando sistematicamente tudo o que diz respeito aos casos que envolvem os amigos dos seus protectores, padrinhos ou benevolentes empregadores.

E a corja televisiva da informação? Seria uma pura perda de tempo perguntarem-lhes se têm as suas preferências partidárias. Até podem ter mas, calma aí pois, tal como nos jornais, quem manda, manda. Tudo afinadinho, tudo controladinho, para seguir a onda que está a dar. E quem seria capaz de recusar o que é dado sem sequer ser pedido?

Corja não deixa de ser também muita daquela gente que comenta, os ditos comentadores, com um grau de acidez estupidamente sectária, que julgam que metem os seus ídolos, ou os seus padrinhos, nos olhos de quem os vê ou os ouve. Não imaginam certamente a figura que estão a fazer quando o seu próprio nível se vai abaixo. 

E a corja que anda colada aos sindicatos, sempre os mesmos, como na monarquia, onde os interesses dos trabalhadores são sempre os interesses deles, principalmente, dos seus partidos porque uns, sem os outros, não teriam muitas vezes onde se agarrar para garantir a sobrevivência.

Não podia faltar aquela parte da corja empresarial que não obedece a regras nem a leis para burlar o estado e, por consequência, todos os sobrecarregados contribuintes que têm de pagar por si e por toda a corja que nunca pagou o devido, mas tenta tudo para ir lá buscar o que pode. Tudo a bem dos empregados a quem não pagam nada, ou pagam sempre muito pouco do que mandam as suas obrigações.  

As piores corjas são aquelas que não fazem, nem deixam que os outros façam, criando dificuldades permanentes que levam à inércia e à paralisação, com o exclusivo intuito de deteriorar aquilo que querem a todo o custo e sabem, ou receiam, que o não conseguem dentro das regras normais para lá chegar.

As corjas, as citadas e outras, muitas outras, como é óbvio, são uma parte do todo. Mas, por muitos e variados motivos, são a parte que influencia o todo, num país vergado às más influências. É por isso que as corjas não têm autoridade moral, nem qualquer outra, para pedir contas a ninguém, do estado em que isto está.  

Nunca serão os lobos com pele de cordeiro deste país, que o vão salvar do abismo em que já está metido. E esses lobos são alcateias de corjas que ainda estão incontroláveis. E assim vão continuar, fazendo disto um país ingovernável, enquanto não houver quem tenha condições para enfrentá-los com determinação e poder de decisão.

Haja pois a coragem de criar essas condições para combater as corjas, em lugar de manter a hipocrisia e a cobardia que as alimentam.