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afonsonunes

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31 Out, 2010

Que horas são?

 

Tenho a impressão que é menos uma hora que ontem, o que quer dizer que o país está mais atrasado agora, principalmente, depois das vinte e três e dezanove de anteontem, minuto em que duas assinaturas, talvez mesmo dois rabiscos ilegíveis, marcaram o início do armistício que ficará para a história como ‘A minha vitória em casa’.

Nem mais nem menos. O doutor Eduardo andou, andou, até que conseguiu levar o doutor Teixeira lá para casa. Eu já sabia que isso ia acontecer. É certo e sabido que quem joga em casa ganha sempre, principalmente, se o da casa tiver na mesa uma lagosta suada e uma garrafinha bem geladinha a condizer.

Mas é que tem de ser assim mesmo para, muito lentamente, ir mudando o gelo dos dois rostos para dentro da garrafa, à medida que ela se for despejando para os dois copos. Depois, ao mesmo ritmo a que se quebra o gelo, os lábios vão desenhando dois sorrisos, até que a conversa se endireita e os sins começam a substituir os meneios das duas cabeças.

A hora vinte e três e o minuto dezanove, não podem ser considerados uma hora qualquer, por exemplo, só para dar uso à imagem do telemóvel. Representa a resistência de dois conversadores de fundo, que conseguiram ultrapassar a hora de jantar com a conversa nas gargantas, por onde apenas passara a lagosta e o vinho bem geladinho.

A essa hora e nesse minuto histórico, já se não pensava em mais nada que no jantar comemorativo que, certamente aconteceu, não ali, que a cozinheira já não estava de serviço, mas em qualquer mesa que pessoalmente escolheram, desta vez cada um para seu lado, visto que já estavam fartos de se ouvir um ao outro.

Sim, porque o tempo dos sorrisos já lá ia. Não dá jeito nenhum fazer uma comemoração com duas pedras na mão, cada um. Sabe-se lá quem atirava a primeira. Mas a verdade é que ambos estavam muito satisfeitos, ambos estavam ansiosos por comemorar, mas longe da vista, porque não se festeja uma vitória com o derrotado.

Apesar de, naquelas cenas antes e durante os encontros, nunca se ter percebido bem se eles eram da mesma equipa ou adversários de verdade. Houve momentos para manter todas as dúvidas e permitir todos os palpites, com as preciosas ajudas dos vibrantes adeptos e dos três treinadores dos gabinetes de alto nível.

Peço perdão pela triste imagem que me veio è ideia, pois eu sei que isto não é bola, nem tem treinadores. A minha cabeça é que já está a rolar como essa bola, com tantos pontapés que já levou. E sem culpa nenhuma, pois não fui eu que andei por aí a pôr muitas outras cabeças à roda com toda esta assistência endiabrada.

Tem-se perguntado muito, e discutido muito mais, nos ‘mentideros’ comunicacionais, sobre quem foi o vencedor destes encontros. Do meu ponto de vista, muito curto, há vários aspectos a considerar, ou seja, podíamos distribuir vitórias e derrotas parcelares. Mas, com toda a justiça, ambos mereceram a vitória sobre a teimosia.

Agora, não podemos ignorar que uma vitória em casa não é uma vitória fora, embora mereça os mesmos pontos. É uma injustiça. A ter em conta também, que o doutor Teixeira esteve a defender a sua dama. Normalíssimo. Pelo contrário, o doutor Eduardo esteve a defender a dama de outro. Vantagem para o doutor Eduardo. Um cavalheiro, sem dúvida.

Porque é muito mais fácil defender o que é nosso, que defender o que é dos outros. Nos tempos que correm, não nos devemos admirar que para bem defender os nossos interesses, se não somos capazes de os defender nós, é preciso arranjar um bom advogado. Ora o doutor Eduardo nem sequer é advogado.

Já tenho ouvido dizer que os bons advogados conseguem ganhar causas perdidas. Mérito do doutor Eduardo que se portou à altura de um bom advogado.

A propósito, que horas são? Ao fazer desta, são mesmo dez e dezanove. Como as coisas são. De ontem para hoje, já perdemos uma hora. Estamos sempre a atrasar.