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afonsonunes

afonsonunes

17 Nov, 2010

Bipartidarismo

 Não é por acaso que o Sol está cada vez mais em baixo no Outono, ou não estivesse cada vez mais tapado por umas nuvens estranhas que mais parecem rolhas, daquelas que os seus admiradores, comentadores e colaboradores tanto dizem detestar quando denunciam outras, sob a forma de suspeitas, muitas vezes infundadas.

Ou talvez seja porque nesta altura do ano o Sol arrefece, a temperatura baixa e as pessoas mais resistentes desviam-se das nuvens sombrias que o Sol não perfura. Na verdade, há quem se sinta penetrado por raios e coriscos vindos do tal astro rei que nos selecciona e nos priva da sua luz, mesmo mortiça e, ao que parece, bastante castradora.

Para mim, muito mais estranho que o Sol, são os muitos que, estranhamente, tudo consideram estranho, como se a liberdade de pensar e de opinar estivesse vedada a alguém, mesmo a quem tem cargos importantes neste país. Depois, pior ainda, é o modo como aqueles distorcem tudo o que não lhes interessa ouvir.

Não custa nada deduzir que, segundo esses estranhos cidadãos, os governantes não podem abrir a boca. Senão, cada vez que a abrem, ou entra mosca ou sai asneira, que é como quem diz, ou estão a dizer mal da oposição, o que é uma heresia, ou estão a dizer mal de si próprios ou dos outros governantes, o que é um sinal de que o governo está de pantanas.

Por mim, gostava de entender esta espécie de democratas que eles são, reafirmando a todo o momento o seu direito de dizer tudo, mas mesmo tudo, enquanto negam aos seus odiados, o mais elementar direito à opinião, quer enquanto governantes, quer enquanto cidadãos que nunca devem deixar de ser.

Por outro lado, dentro do nosso espectro partidário, verifica-se outra estranheza de me deixar um tanto obtuso, que é um pouco mais que estranho. Trata-se da convergência, principalmente, do PSD com o PCP, em tudo quanto se relacione com questões que visem fazer abortar medidas propostas pelo PS.

No meu curto entender, as diferenças ideológicas entre eles deviam ser de tal forma que os colocariam quase sempre em campos opostos de qualquer discussão política. O que acontece é, exactamente, o contrário. Ambos, estranhamente, estão quase sempre juntos para que nada de essencial mude na sociedade portuguesa.

Esta realidade, que aparece aos meus olhos como indesmentível, mostra-se quando folheio a maioria dos jornais, onde não há, actualmente, alternativas à corrente de direita dominante, como na informação das televisões, onde a do estado se mostra a mais sectária e a mais tendenciosa, não só em política, como noutras actividades do país.

O negativismo está instalado, e bem instalado, graças ao poder cada vez mais subjugante do capitalismo selvagem, que alguns combatem de língua, ou de escrita, mas que o adoram como meio de se manterem no topo de qualquer coisa. Veja-se uns tantos colunistas de jornais de referência, como o DN, par não ir mais além.

Até parece, ou talvez não seja apenas aparência, que se misturem os da direita com os da esquerda, a odiar a mesma coisa, que é a coisa que lhes mexe na algibeira. Até podiam e deviam defender o que lhes interessa, que eu bem sei o que é, mas podiam e deviam fazê-lo com um mínimo de decência, de educação e de boas maneiras.

Podem defender-se ideias sem atacar a dignidade e a honra das pessoas, estejam elas no patamar mais baixo ou mais elevado da sociedade, sejam elas mais ou menos graduadas culturalmente em relação àqueles perante os quais tanto se põem em bicos dos pés para ver se lhe chegam aos calcanhares.

E, sobretudo, não pensem esses montes de inteligência, pelos vistos quase sempre inútil, que toda a gente vai pelo seu palavreado. Como já tenho ouvido dizer, as aparências iludem. E de que maneira. Talvez por isso, essas inteligências raramente se viram em lugares onde pudessem mostrar o que valem.

Esta gente acha tudo muito estranho, quando sentem que lhes toca contribuir para que outros fiquem menos vulneráveis. Depois, é vê-los a tentar defendê-los, com grande alarido, como se não fosse evidente que eles se defendem, exclusivamente, a si próprios.

Estranhamente, não consigo ver certos ferrenhos atacantes conotados com o PSD e o PCP em relação a figuras ligadas ao PS, mas não tocam em figuras sempre ligadas ao PSD. Acho estranho, muito estranho. Por mim, podem atacar à vontade, mas acho muito estranho que o façam só para um lado.

Será que há quem seja militante ou simpatizante em regime de bipartidarismo? Além de estranho, também acho muito curioso, este estranho Sol que só aquece alguns.