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afonsonunes

afonsonunes

23 Nov, 2010

Os badamecos

Nem sei bem a que propósito me vieram à lembrança os badamecos dos tempos de outrora, já que nos dias de hoje parece não haver cá disso, apesar do insucesso escolar e da iliteracia ainda serem potenciais factores da sua existência. Todavia, a gente pára, escuta e olha, em qualquer esquina e só ouve gente sabida, entendida e desenvolvida.

Os badamecos não sabiam nada de nada logo, não se atreviam a botar opinião sobre aquilo que nunca entrara nas suas limitadíssimas cabecinhas de gente sem importância. Até fazia sentido, se pensarmos que a lógica da batata nos diz que nunca se pode tirar de qualquer lado, o que nunca lá se meteu, com excepção dos verdadeiros ilusionistas que tiram tudo de onde não há nada.

Com base neste raciocínio, hoje, badamecos é raça que não existe, pois toda a gente tem muita importância, como deve ser, toda a gente sabe tudo, mesmo que nunca tenha ido aprender, o que é surpreendente, na medida em que isso representa um poder de auto aprendizagem verdadeiramente incomparável, relativamente a outros países.

Contudo, se não temos badamecos a sério, temos muitos badamecos híbridos, ou seja, já aprenderam umas coisas, mas sobre valorizam a sua importância ao pretenderem constantemente meter o bedelho onde a tal lógica da batata desaconselha que o façam, visto que a sua influência é zero e a sua opinião é manifestamente uma gracinha que não dá sequer para rir.

Ao menos que pudéssemos levar esses ditos à conta de palpites, mas nem isso. Falta-lhes aquela pontinha de probabilidades mínimas de acerto. De quando em vez até arriscam uma exigência ou outra, com aquela solenidade de quem julga que pode dar ordens a quem tem mais que fazer do que dar atenção a ‘badamequices’.

Não tendo muito a ver com o caso, lembrei-me agora de uma ou outra espécie aproximada, que, volta não volta, lá exige a demissão imediata deste ou daquele. Só podem estar a brincar à batalha naval adaptada à política, onde não há nada mais que água. Nem sequer uns barquitos de plástico, quanto mais submarinos a sério.

Bom, já agora, também me ocorrem aquelas espécies que, por falta de ideias que alimentem a sua necessidade de dizer qualquer coisa, uns palpitam que vai haver remodelação, outros exigem que se faça já uma remodelação, outros ainda lamentam que ela ainda não tivesse já sido feita.

O país não precisa de uma remodelação. Precisa de muitas remodelações, a começar por aqueles que estão tão obcecados com as dos outros. Qualquer badameco de antigamente diria que quem faz a maior de todas elas é o povo, mas em tempo oportuno, e não ao sabor de híbridos da politiquice.  

Tal como aquele frenesim dos tabus, desenterrado a propósito de uns lamirés de autênticos badamecos que a gente pensa que já não existem mas, de vez em quando, lá tropeçamos num exemplar raro que não tem a noção do espaço que lhe cabe, sem se meter no espaço que ninguém lhe cedeu.

Mudando de assunto. Já agora, aproveito para mostrar a minha satisfação pela preciosa ideia de um veículo com instalação sonora que, durante todo o dia, fez a mobilização para a greve de amanhã. Nada de anormal, se não fora a insistência em lembrar a importância de que se reveste a aderência de todos os reformados.

Ora aí está uma excelente ideia. Ao menos estes não sofrem o respectivo corte nas reformas. A mesma insistência se ouvia em relação aos desempregados. Acho uma maravilha que se lembre a estes trabalhadores que façam greve, pois talvez alguém lhes pague o dia que ninguém lhes pode descontar.

Quanto aos outros, cada um lá sabe as linhas com que se cose. Um dia de satisfação com as mãos a abanar, vale bem um dia de ordenado a voar.